Opinião

O impeachment impossível

25 de Janeiro de 2020 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por Cássio Furtado, professor e jornalista

Nos últimos dias, Democratas e Republicanos vêm duelando sobre algo que ambos sabem que não acontecerá: o impeachment de Donald Trump, o magnata que preside os EUA.

Na quarta-feira (22), o deputado Adam Schiff, presidente do Comitê de Inteligência da Câmara dos Deputados e integrante do grupo de promotores que acusam Trump, afirmou que "o presidente mostrou que acha estar acima da lei".

O julgamento do presidente está ocorrendo no Senado. Em um primeiro momento, a acusação e a defesa têm direito a uma exposição de 24 horas cada.

Após as considerações de defesa e acusação, os senadores têm 16 horas para fazerem perguntas por escrito, como se jurados fossem.

A grande polêmica, no entanto, é se testemunhas serão permitidas ou não durante o julgamento.

Na última semana, todas as tentativas dos Democratas de convocarem testemunhas relevantes foram bloqueadas pelos Republicanos, os quais derrubaram 11 propostas de emendas em uma única sessão.

Nos últimos meses, a presidente da Câmara dos Deputados dos Estados Unidos, Nancy Pelosi, vinha conduzindo o processo de impeachment contra Trump.

Depois da admissão do processo pela Câmara, de maioria Democrata, Trump foi acusado por abuso de poder, ao demandar informações sobre o filho de Joe Biden, seu rival nas eleições desse ano, para o presidente ucraniano Volodymyr Zelenski.

O objetivo de Trump era simples: prejudicar seu principal rival eleitoral, utilizando informações privilegiadas sobre os negócios de seu filho. Para isso, teria solicitado a intervenção direta da presidência de outro país.

A segunda acusação é a de obstrução de justiça, por tentar bloquear o andamento do processo contra ele, recusando-se a testemunhar e a permitir o testemunho de importantes assessores.

Desde que assumiu a presidência, em janeiro de 2017, Trump tem acumulado uma longa lista de peripécias.

Ele já anunciou a saída dos Acordos de Paris, que objetivam reduzir o impacto do homem no clima e reconheceu Jerusalém como capital de Israel, ignorando o pleito palestino de que Jerusalém Oriental venha a ser a capital de uma futura Palestina.

Em 2018, rejeitou o acordo nuclear costurado com o Irã, que garantia a fiscalização do país islâmico. Com isso, as tensões entre os EUA e o Irã aumentaram e atingiram níveis impensáveis, potencializados com o ataque com mísseis que matou o general iraniano Qasem Soleimani recentemente.

Seguindo a cartilha do Partido Republicano, Trump enterrou qualquer proposta de controle armamentista após os repetidos tiroteios em escolas, como o que aconteceu na Stoneman Douglas High School.

Nos últimos anos, o governo Trump separou milhares de crianças de suas famílias. Em sua maioria, foram enviadas para centros de detenção em áreas próximas da fronteira com o México, em estados como o Texas, o Arizona e a Califórnia. O escândalo escancarou a absoluta crueldade de seu governo para com os migrantes e refugiados.

Mais: o promotor independente Robert Muller investigou Trump e as inúmeras alegações de que ele tenha recebido apoio e patrocínio russos para chegar à presidência.

Mas a gota d'água foi a ligação telefônica entre Trump e o presidente da Ucrânia, Zelensky, na qual Trump demanda a ajuda do ucraniano para investigar o filho de Biden, que, por oito anos, foi o vice-presidente de Barack Obama.

O pedido de impeachment foi aceito pela Câmara, já que ela possui maioria Democrata.

O Senado, no entanto, possui maioria Republicana.

E o impeachment, para ser válido, deve ser aprovado pela Câmara dos Deputados e, posteriormente, pelo Senado.

Essa maioria conservadora, mesmo que tenha suas discordâncias ocasionais com Trump, jamais permitiria que ele sofresse impeachment.

O midiático pedido de impeachment conseguirá manchetes. Mobilizará a oposição. Mas os efeitos práticos para a presidência de Trump serão pequenos.

Ele seguirá presidente, no mínimo, até janeiro de 2021, isso se não for reeleito, o que, hoje, parece muito provável.


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