Opinião

O horrendo país governado por um louco

25 de Junho de 2022 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Sérgio Cruz Lima, colaborador

Finda a Guerra da Secessão, maior conflito civil ocorrido na América do Norte, inicia-se no hemisfério sul uma nova ocorrência bélica _ a Guerra do Paraguai. No conflito, entre encontros e desencontros, tapas e beijos, o Paraguai é apoiado pelos Estados Unidos e pela Bolívia.

Segundo declarações do chefe da Legação da Espanha no Rio de Janeiro ao Império do Brasil, o ditador boliviano, Manuel Mariano Melgarejo Valencia, que chegara ao poder via golpe de estado, ao derrubar o presidente José Maria Achá Valiente, “deixou passar, constantemente e sem obstáculos, todas as armas e munições que vinham dirigidas ao presidente López”. O próprio Melgarejo se comprometera, entretanto, a prover o exército paraguaio com pólvora e armamentos. Tais apetrechos bélicos, ao que parece, seriam provenientes dos Estados Unidos, conforme documento apreendido pelo Serviço Secreto do Império, assinado pelo embaixador americano no Paraguai, Charles Washburn. Em 1866, Melgarejo manda uma correspondência a López oferecendo-lhe 12 mil soldados bolivianos para lutar contra os aliados. Dois anos depois, a oferta de homens chega a 100 mil; uma evidente bravata, já que o país não dispunha de um exército com tantos soldados. Mas Melgarejo, que governa a Bolívia entre 1864 e 1871, tem algumas histórias que, por seus aspectos curiosos, merecem ser narrados.

Certa vez o ditador boliviano, filho ilegítimo de um hispano-boliviano e uma índia quíchua, resolve comemorar, em grande estilo, o nascimento do trigésimo filho bastardo. Para isso, convoca o corpo diplomático acreditado em La Paz. O cônsul inglês, doente na ocasião, é o único a não participar do evento e envia-lhe correspondência na qual pede-lhe humildemente escusas. Indignado pela ausência, Melgarejo manda a polícia atrás do britânico e leva-o à força ao palácio. Ao chegar, obriga o pobre diplomata a beber uma barrica de chocolate na frente dos demais convidados. Em seguida, faz com que desfile, totalmente nu, montado de costas no lombo de um burro. Da sacada palaciana, o ditador que vivia bêbado e de orgia em orgia com seus colaboradores mais próximos e com a concubina favorita Juana Sánchez, bate palmas e exclama, enquanto o inglês se borra todo: “Que lindo, que rico! El gringo cabrón es ahora una lady Godyva com collones!”.

Ao receber um relato do fato, a rainha Vitória convoca o primeiro lorde do Almirantado e encomenda uma esquadra para encher de tiros de canhão o agressivo país latino-americano. O lorde tenta explicar à soberana que é impossível fazer guerra naval a países mediterrâneos como a Bolívia. Convencida, ela corre ao mapa mundi existente em Buckingham, traça um enorme X sobre a região e declara, entusiasta: “A partir deste momento, o horrendo país desse louco deixa de existir no que nos diz respeito”. Realmente, por muitas décadas, a Inglaterra desconhece a existência da Bolívia, aquele “horrendo país governado por um louco”.

A ditadura de Melgarejo Valencia é devastadora para a Bolívia. Ele saqueia o tesouro público, suprime as municipalidades, decreta empréstimos obrigatórios que são feitos com ameaças e mortes, Não satisfeito, trucida tribos inteiras. Mas tem mais. Em outra ocasião, frente ao exército perfilado em sua homenagem, agora em razão de seu aniversário, o ditador solta a seguinte pérola: “Ninguém neste país me inspira sentimentos de confiança. Não confio no Exército, nem em vocês, soldados. Não confio na camisa que estou a vestir”. Em seguida, desabotoa a farda militar, tira a camisa e ordena ao oficial de serviço: “Fuzilem essa merda!” Apeado do poder, foge para o Peru. Lá, com medo de ser descoberto por desafetos, é assassinado por um irmão de Juana, José Amálio Sánchez.


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