Artigo

O homem maldito (Jaguarão, 1845-1858)

Texto escrito por Luís Rubira, professor do Departamento de Filosofia da UFPel

03 de Julho de 2020 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -
Capa do livro O Homem Maldito, de Carlos Eugenio Fontana

Capa do livro O Homem Maldito, de Carlos Eugenio Fontana

A planta da Vila de Jaguarão, em 1854, e o livro Don Frutos, de Aldyr Garcia Schlee

A planta da Vila de Jaguarão, em 1854, e o livro Don Frutos, de Aldyr Garcia Schlee

Por: Luís Rubira, professor do Departamento de Filosofia da UFPel

"Maldito seja todo aquele que não é fiel a todas as coisas que estão escritas no livro da Lei para serem praticadas" (Gálatas 3:10). Sentença proferida no Novo Testamento, talvez ela tenha servido de tese para que Carlos Eugenio Fontana (Pelotas, 1830 - Rio Grande, 1896) escrevesse "O homem maldito. Um romance brasileiro", obra publicada no ano de 1858, cuja trama desenrolasse inteiramente em Jaguarão, entre 1845 e 1858.

Foi primeiramente Sacramento Blake quem resgatou o nome de Carlos Eugênio Fontana da vala comum da literatura. No verbete que lhe dedica em seu Dicionário Bibliográfico Brasileiro, ele registra aspectos da trajetória biográfica de Fontana informando que "por causa da guerra civil que ateou-se em sua província em 1835, ainda criança foi com sua família para o Rio da Prata, fez parte de seus estudos em Buenos-Aires, e voltou à pátria em 1853". Explorando também seu percurso intelectual, ele chama a atenção para o fato de Fontana ter criado na fronteira do país, em 1853, o jornal Commercio do Littoral "um periódico escrito em castelhano e português, o primeiro que se publicou na campanha, quer oriental, quer da província" (Blake, 1893, v.2, p. 64). Transcorridos quase cem anos de sua publicação, uma primeira apreciação crítica de "O homem maldito" veio somente por meio de uma breve reflexão de Guilhermino Cesar em sua História da Literatura no Rio Grande do Sul (1956).

Obra que praticamente desapareceu das estantes com a passagem dos anos (restando talvez em propriedade de uns poucos bibliófilos), um único exemplar existente em uma biblioteca pública deu origem à dissertação de mestrado de Sheila Fernandez Garcia, intitulada "O homem maldito, de Carlos Eugenio Fontana: o início do romance sul-rio-grandense" (defendida na Furg em 2012). Ao longo de 151 páginas de texto, a autora tem o mérito de ter realizado uma transcrição do livro em sua íntegra, bem como o de haver levantado hipóteses acerca de seu valor literário e reconstruído aspectos da trajetória biografia e intelectual de Fontana, que, certamente, estruturam sua obra. Dedicando-se a um estudo de periódicos e fontes de época, ela então nos faz ver que "o primeiro ponto a ser observado sobre a tênue ligação entre ficção e realidade no romance O homem maldito é a intensa rivalidade política entre o jornalista Carlos Eugênio Fontana e José Luís Corrêa da Câmara, o sobrinho do então governador, os quais travam um rigoroso debate no jornal O Povo, de 1856 e 1857".

Narrativa que tem como principais protagonistas os rivais Carlos e José Luis, nela vemos que todos os atos de injustiça, embora não sejam punidos a tempo pelas leis humanas, são necessariamente corrigidos pela justiça divina. Obra que gira em torno das desventuras de duas mulheres, Heloísa e Sofia, um dos elementos que chamam a atenção é a presença de aspectos de um determinado período da história de Jaguarão. Carlos Eugenio Fontana descreve seu lugar no orbe ("o sol cansado da carreira diurna baixava do apogeu e desaparecia ocultando-se no ocidente entre nuvens de ouro e púrpura, lançando seus últimos raios pálidos e descorados sobre a bela vila de Jaguarão, luzindo sobre os telhados e vidraças como uma despedida melancólica"); indica o nome de suas ruas (do Comércio, da Boa Vista, do Triunfo, da Enfermaria); mostra aspectos de sua vida social (Uma "soirée" na casa do Sr. Félix, tio de Sofia, onde se dança Valsa e Polska; residência em que mais tarde ocorrerá uma cerimônia de casamento na qual se tocará piano, ocasião em que a noiva "Trajava um vestido de cetim branco, com babados de renda de seda da Escócia"). Fontana ainda registra em seu livro versos de época (recitados em espanhol por um brasileiro: "Media caña, Caña entera, Y lo que sobre Para su abuela"); recompõe aspectos da vida social, política e jurídica da Vila (e depois cidade) de Jaguarão; rememora assassinatos como o de David José de Estrela; relembra e julga, também, que a única forma de combate ao despotismo reinante era por meio da liberdade de imprensa (ocasião em que trata de diversos jornais locais). Que outra cidade do Rio Grande do Sul e do país terá recebido tratamento assim em sua literatura naquela década de 1850?

Lembro que encontrei a dissertação de mestrado de Sheila em 2016. Recordo que naquela época passei os olhos na transcrição de "O homem maldito", e que no último ano de convivência com o escritor Aldyr Garcia Schlee lhe falei sobre este livro de Fontana. Schlee desconhecia a obra e não levamos adiante o assunto. É pena que somente nas últimas semanas eu tenha, de fato, lido a obra e a dissertação. O mais surpreendente para mim depois destas leituras é saber que Carlos Eugenio Fontana chega em Jaguarão no ano de 1853, e que Aldyr Garcia Schlee inicia o seu Don Frutos com estas linhas: "O inverno de 1853 foi o pior inverno que Jaguarão teve". Paralelismos à parte, uma segunda edição de "O homem maldito" certamente contribuiria para o resgate de um período daquela cidade às margens de um rio que Fontana descreveu como "uma serpente de prata, deslizando-se suavemente sobre o verde campo".


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