Editorial

O gás não pesa no bolso do trabalhador?

04 de Março de 2021 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Três aumentos em dois meses. Esse é o ritmo de reajustes promovidos pela Petrobras em um dos itens mais essenciais nas residências de qualquer brasileiro: o gás de cozinha. A mais recente das altas se deu na segunda-feira e chegou ontem à maioria dos estabelecimentos que vendem ao consumidor.

Se nas refinarias o percentual de último ajuste no preço foi de 5,2% (o equivalente a R$ 1,90 por botijão), a realidade na ponta é bem diferente e não permite a ilusão provocada pelos percentuais anunciados a conta-gotas pela estatal. Quem procura uma distribuidora para reabastecer o fogão de casa está pagando, hoje, cerca de 12,5% a mais do que no começo do ano. Um botijão entregue na porta de casa passou de R$ 80,00 para R$ 90,00. Se colocarmos nessa comparação o preço atual em relação ao do ano passado, a aceleração é assustadora. Em janeiro de 2020, as revendas de Pelotas cobravam em torno de R$ 68,00. Ou seja, em 14 meses houve um salto de 32,3%. No mesmo período, o salário teve apenas 5,26% de correção.

Diante de tantas reclamações, governo e Petrobras tentam amenizar o catastrófico efeito disso sobre a vida dos mais pobres. Não com medidas efetivas de redução desse peso nos orçamentos, mas através de contorcionismos retóricos. Enquanto o Executivo federal coloca toda a culpa nos impostos estaduais - pesam, sim, na conta - e esquiva-se de sua responsabilidade pela política econômica que corrói a renda das famílias, a estatal se justifica em seu site.

Ao acessar a página da Petrobras e buscar informações sobre o gás de cozinha, o cidadão é direcionado a um bloco de perguntas e respostas sobre o assunto. E uma delas é: "o gás de cozinha passou a pesar mais no bolso do trabalhador?". A resposta parece óbvia diante do citado acima neste editorial. Contudo, a empresa surpreende. "Não. Em 2007, o preço ao consumidor do botijão de 13 quilos chegou a representar 8,7% do salário mínimo. Desde então, tem oscilado entre 6 e 8%. Em 2019, correspondeu a 6,9% do salário mínimo e, no ano passado, a 6,8%", diz o texto.

O curioso é que essa conta não bate na prática. Afinal, se o botijão está custando cerca de R$ 90,00 em Pelotas, isso representa 8,2% do salário mínimo. Mais, portanto, que os 6,8% citados pela estatal do ano passado e acima da oscilação até 8% destacada em sua página. E isso sem levar em conta que, em algumas cidades do país, já se vende gás por R$ 100,00 (9,1% do salário).

Por mais que se tente dar nó nos fatos, quem vive a realidade sabe o quanto está difícil ter o básico. Está na vida diária dos cidadãos e a imprensa vem alertando para dramas como o mostrado em reportagem de capa do DP na segunda-feira, em que Rita de Cássia, mãe de três filhos e moradora do Getúlio Vargas, em Pelotas, teve que optar entre colocar comida no armário ou ter um botijão. Optou, claro, pelo alimento. Pois gás para cozinhar está virando artigo de luxo.


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