Artigo

O garimpeiro de livros que reescreveu a história de Pelotas

23 de Setembro de 2021 - 19h45 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por Klécio Santos

Jornalista e escritor

Há quase uma década, em pleno inverno de Pelotas, um sebo de apenas 40 metros quadrados abrigava um grupo de amigos ao redor de uma TV portátil, emoldurados (para não dizer espremidos) por milhares de livros. Na telinha, um dos jogos mais vibrantes válido pelas quartas de final de uma Copa do Mundo: Uruguai e Gana. A pequena torcida, majoritariamente da Celeste, dividia o chimarrão da marca Baldo (erva padrão uruguaio, claro!), assistindo meio que de soslaio aos lances inacreditáveis da partida, enquanto nos raros momentos de distração procurava nas estantes alguma raridade bibliográfica.

O grupo vai ao delírio com a vitória do Uruguai nos pênaltis, enquanto nosso anfitrião Adão Fernando Monquelat apenas observava, impávido como Bruce Lee. A atmosfera do lugar, contudo, tornou ainda mais mágica aquela epopeia do futebol. A identificação do livreiro com o Uruguai não era apenas um modismo. Em uma época pré-internet, Monquelat foi responsável por introduzir no cotidiano de Pelotas autores uruguaios como Mario Benedetti, Juan Carlos Onetti, Aníbal Barrios Pinto ou Fernando O. Assunção, cujas obras eram disputadas à tapa pelos amantes da literatura platina.

Foi ainda em Montevidéu - depois de 145 anos de grande esforço de bibliófilos e pesquisadores-, que, em 1992, a arte do garimpo de Monquelat mexeu com o universo literário gaúcho ao localizar o único exemplar até hoje conhecido de A divina pastora, publicado em 1847, do escritor José Antônio do Vale Caldre e Fião. A obra é o segundo romance na história da literatura brasileira. A descoberta do Santo Graal do universo literário gaúcho, por incrível que pareça, não estufava o peito de Monquelat.

Com o passar dos anos, o livreiro aprimorou sua faceta de pesquisador (é isso que o orgulhava), dando um novo sentido para a História de Pelotas, contada pelo viés dos rejeitados, dos que sempre ficaram à margem da opulência dos barões do charque e da riqueza que jorrava da matança dos bois. Monquelat trouxe à tona uma Pelotas obscura, embalada pelo batuque dos escravos e das festas e orgias nas tabernas.

É responsável por descobrir textos inéditos de João Simões Lopes Neto como os poemas Revé e Dúvida. Também foi vasculhando jornais como um caruncho que Monquelat encontrou mais recentemente, nas páginas do Correio Mercantil, de 1900, o texto A família Marimbondo, com a marca de Serafim Bemol, com quem o autor grafou boa parte de sua obra teatral.

Suas revelações sobre Simões, porém, não pararam por aí. Vão de curiosidades sobre a vida do genial escritor até a rigorosa pesquisa que demonstra que o personagem João Cardoso, eternizado no texto O Mate de João Cardoso, foi um dos pioneiros na fabricação de charque no Estado.

Aliás, o tema das charqueadas era uma das obsessões de Monquelat. Além de desconstruir o mito de que a vanguarda da atividade pertence a José Pinto Martins, português que teria desembarcado no Sul fugindo da seca no Ceará, em Senhores da carne _ na minha opinião, sua obra mais emblemática, junto com o inédito, A princesa do vício e do pecado _ Monquelat comprova que estancieiros abolicionistas gaúchos trocaram o discurso pelos grilhões, mantendo escravos e transferindo suas propriedades para o Uruguai, entre eles Antonio Gonçalves Chaves, o anfitrião do viajante e naturalista francês Auguste Sain-Hilaire

Monquelat também se dedicou ao cotidiano de Pelotas e suas idiossincrasias através de obras como Pelotas no tempo dos chafarizes, Pelotas dos excluídos e As praças de Pelotas, algumas em parceria, outras em voo solo, algo que fez com certa independência em peças teatrais como No Más... Uma cena gaúcha nos anos 1980 ou com a publicação das novelas Maiêutica e Fóquiu & Company nos anos 1990.

Desde que esse ex-colecionador de gibis ousou sair detrás do balcão e se aventurar como escritor, o lado obscuro e menos sofisticado de Pelotas ganhou outro charme, desprovido do glamour tedioso descrito pelos herdeiros da oligarquia. O lado B de Pelotas foi enfim desnudado pela digital do nosso enfant terrible, que apesar de tudo, mantinha a simplicidade e a rotina de abrir sua livraria, sempre servindo um mate amargo, com erva padrão uruguaio, e uma boa prosa, é claro.

*Crônica extraída e editada a partir do livro Mais perfeito que o paraíso e outros desatinos de Pelotas


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