O fiel companheiro de Martin Aquino

04 de Maio de 2014 - 13h39 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por Sérgio Cruz Lima

Martin Aquino, nascido em Frey Marcos, no Uruguai, integra o grupo dos legendários matreiros da campanha gaúcha. Sua infância, sem o concurso da escola, é rica em incidentes. Aos 11 anos, montado no petiço de estimação, Martin foge de casa. Encontrado por amigos, trocara o animal por alimento, embora casmurro, retorna ao convívio da mãe. Aos 15 anos, foge outra vez. Desta feita para se alistar nas "forças provisórias" do governo uruguaio, que se preparam para arrostar uma revolta do Partido Blanco. Mas a vida disciplinada da caserna não o atrai. Dá no pé. Porta consigo a arma e o cavalo reiúno. Alcança o Chuí e instala-se em Santa Vitória do Palmar. Na cidade, inicia a vida de aventuras, tornando-se peão na estância de um fazendeiro local. Mais tarde, em defesa de seus direitos e de sua vida, o patrão será a sua primeira vítima. A morte abre-lhe o caminho do crime. Processado, é condenado e recolhido à prisão. Logo foge da cadeia. Excelente campeiro, laçando bem e gineteando melhor, hábil na arte de atirar, Martin torna-se, então, um legítimo matreiro.

Perseguido pela polícia, cavalgando solitário nas estradas, busca esconderijo nas matas. Às vezes, à cata de provisões, visita o rancho de um amigo. Alguns fazendeiros, reconhecendo suas qualidades na lide campeira, prestam-lhe socorro e lhe oferecem dinheiro para o suprimento das necessidades básicas ou escondem-no das autoridades policiais. E o fazem porque o conhecem desde a infância. Sabem que, embora violento, ele não é bandido. Se Martin matara alguém fora pelas circunstâncias do momento. Mas novo incidente ocorre. Ao duelar com Juan Ojeda, Martim mata-o. Em verdade, duelara lealmente à moda crioula e sua consciência não o acusa de nada. Novamente preso, é levado ao Rio de Janeiro e extraditado para o Uruguai. Mais uma vez foge da prisão. E o pior acontece: a morte do coronel João Cardozo, destacado líder político do Departamento de Florida.

Afamado como seu dono, o cavalo de Martin Aquino, seu fiel companheiro, há de passar à história folclórica do Rio Grande. Nobre e corajoso, o animal acompanha-o na vida de aventuras, partilhando com o dono os perigos e as incertezas que a vida lhes proporciona. Todavia, em verdade, tudo o que se sabe sobre o animal é oriundo de fontes folclóricas: comentários populares de carreiras e balcões de bolichos.

Presente dado a Martin por Maria, sua mulher, quando ainda namorados, o cavalo fora domado e adestrado pelo próprio dono. Isso oportunizara o surgimento de certas qualidades não encontradas em outros animais de montaria. Diz também da dedicação e fidelidade do animal a seu patrão.
Estivesse onde estivesse, o cavalo, excelente corredor, atendia de pronto ao assovio de Martin. Ouvido o silvo, abanando o rabo e com a crina ao vento, galopava em direção ao chefe. Fugindo da polícia, escondiam-se os dois deitados ao comprido entre "pajonais". Nas fugas, com o cavaleiro no lombo, o animal jogava-se do alto de barrancos e mergulhava nas águas dos arroios, cortando a correnteza a nado firme em direção à margem oposta. Fruto do treinamento constante, o cavalo de Martin Aquino muitas vezes o salvara com façanhas difíceis de execução por outros animais não adestrados.

Contam os paisanos da época que quando Martin dormia à luz das estrelas e se aproximava algum estranho, o animal acordava-o, tocando-o repetidamente com o focinho. Martin ferido, ajoelhava-se para facilitar a monta do cavaleiro. Contam, ainda, que nos entreveros, quando o patrão precisava desmontar para se embrenhar na mata, o animal disparava campo afora com os arreios, impedindo que os soldados o apanhassem. Passados os momentos de tensão, o fiel companheiro retornava relinchando em busca do dono.

No derradeiro combate de Rincón de La Urbana, na noite de 5 de março de 1917, quando Martin perde a vida, contam os antigos que o cavalo, que estava em um potreiro perto das casas, ao ouvir o assovio do dono em meio ao cerrado tiroteio, saltara a cerca e ingressara no local da refrega. Vendo o patrão caído com graves ferimentos, o animal se ajoelhara e tocara-o com o focinho repetidamente para que Martin o montasse e fugisse como acontecera em tantas oportunidades. Verdade ou não, naquela noite fatídica o cavalo lá estava. Participara do último combate de seu dono, tanto que fora retido pela polícia, conforme afirmação do comissário Pedro Gonzales. A fantástica história de Martin Aquino está ligada ao fiel animal, como ele também o está a um matreiro da liberdade.


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