Artigo

O exemplo de Jacinda

29 de Março de 2019 - 07h59 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Cássio Furtado - professor e jornalista

Há duas semanas, a Nova Zelândia viveu o dia mais sombrio de sua história. Naquele dia, 15 de março, o terror abalou o pequenino país, com uma população de menos de 5 milhões de habitantes.

Um atirador matou 50 pessoas e feriu 40 durante as orações de sexta-feira, em duas mesquitas de Christchurch. Ainda pior: a carnificina foi transmitida ao vivo pelo Facebook.

Em tempo real, o atirador, um supremacista branco australiano, percorreu o caminho até uma das mesquitas, atirou nas vítimas e mostrou imagens dos mortos e feridos. Quando as balas acabaram, trocou de arma e seguiu atirando em qualquer um que mostrasse sinais de vida.

Horas antes, um fórum conhecido por seus discursos de ódio afirmou que alguém iniciaria um ataque contra os invasores da Nova Zelândia. Em um manifesto de 74 páginas, o principal suspeito dos ataques, Brenton Tarrant, afirmou que estava havendo um genocídio branco no país. O termo, utilizado por grupos racistas e neonazistas, condena a imigração e o crescimento das minorias.

No dia dos ataques, poucas pessoas fora da Nova Zelândia conheciam Jacinda Ardern. Ardern, de 38 anos, é a primeira-ministra de seu país desde 2017. Antes, havia sido líder do Partido Trabalhista, de centro-esquerda, e membro do Parlamento desde 2008.

Em 2018, ela ganhou notoriedade por ser a primeira chefe de governo no mundo a engravidar e dar à luz no cargo em quase 30 anos. Antes dela, somente a primeira-ministra do Paquistão, Benazir Bhutto, em 1990, havia dado à luz enquanto no poder.

Mas os ataques terroristas às mesquitas em Christchurch definiriam o legado de Jacinda Ardern não somente para a Nova Zelândia, mas para o mundo.

Em questão de horas, ela condenou o terrorismo e se solidarizou com a comunidade muçulmana. Vestindo a tradicional hijab islâmica, Ardern visitou famílias, mesquitas, e disse que os muçulmanos teriam espaço e seriam protegidos em seu país.

Ela visitou Christchurch, o local dos ataques, duas vezes. Em um discurso no Parlamento, a primeira-ministra afirmou que jamais diria o nome do terrorista responsável pelas 50 mortes. Se ele queria atenção e publicidade, disse Ardern, dela ele jamais receberia qualquer tipo de reconhecimento. Os nomes das vítimas, esses sim deveriam ser repetidos incansavelmente.

Ao assassino, ela disse: “Você pode ter nos escolhido, mas nós rejeitamos e condenamos você completamente”.

Entretanto, as ações da jovem líder neozelandesa foram muito além do discurso. Ardern baniu todas as armas de estilo militar no país, incluindo automáticas e semiautomáticas e fuzis de assalto, similares ao armamento utilizado em Christchurch.

A resposta da jovem primeira-ministra ao terror em seu país tem sido elogiada mundo afora. Jornais como o The New York Times, nos Estados Unidos, o The Guardian, no Reino Unido, e o Le Monde, da França, escreveram artigos elogiando a tremenda capacidade de liderança de Jacinda Ardern nos últimos dias.

Ela conseguiu mostrar simpatia à comunidade muçulmana, machucada pelos ataques de Christchurch e por críticas mundo afora. Ao mesmo tempo, mostrou que a Nova Zelândia, um país próspero e pacífico, é um exemplo para o mundo justamente por se beneficiar da coexistência pacífica de migrantes de todos os cantos do mundo.

Ardern foi firme com o terrorista australiano, se recusando a dizer seu nome e negando todos os argumentos que ele havia defendido em seu sórdido manifesto. Ela promoveu mudanças estruturais no país e em suas leis, banindo armamentos similares aos utilizados nos ataques. Ou seja, ela fez tudo o que um verdadeiro líder poderia fazer - e o fez em exatamente duas semanas.

Por tudo isso, Jacinda Ardern, a jovem primeira-ministra da pequenina Nova Zelândia, tornou-se uma líder gigante, respeitada mundo fora e exaltada pela mídia internacional.


Comentários

Diário Popular - Todos os direitos reservados