Opinião

O esquipático “quebra-quilo”

14 de Maio de 2022 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Sérgio Cruz Lima, colaborador

Ao romper a aurora de 11 de dezembro de 1872, a cidade do Rio de Janeiro amanhece em polvorosa. Gritos, sopapos, quebra-quebras, coças, pancadarias, enfim, um motim popular. Uma revolução! O povo subleva-se contra o novo sistema de pesos e medidas que considera antipático e julga profundamente injusto. Como os cariocas não têm muita paciência, pronto! Um deus nos acuda!

Turbas ensandecidas e populares exaltados invadem as propriedades comerciais e espancam os proprietários, enquanto os demais agitadores plantam-se nas esquinas e instigam a população contra os negociantes “que inventam mais uma para lesar o povo”. A populaça furiosa depreda as casas comerciais, surra os comerciantes e até os balconistas e empregados que nada têm a ver com o caso. A revolta é ainda mais feroz contra os açougueiros que fogem às pressas loucos de medo. A terrível cólera popular perdura horas e horas. O povo não se conforma com a inovação tola e absurda. Se os antigos sistemas sempre funcionaram tão bem, dizem, qual a razão para alterá-los? É mais um estrangeirismo. Algo importado para sugar ainda mais a poupança dos pequenos empresários. Isso é demais...

O certo é que os proprietários de estabelecimentos comerciais estão em sério perigo. Suas vidas, por um fio. O conflito acaba por envolver a intervenção policial. Há tiroteios. Espancamentos. Tanto policiais quanto populares são feridos. Felizmente não há óbitos a lamentar. Mas o motim oferta muito trabalho às autoridades. Felizmente, assim como surgira, o temporal se vai. A população carioca acaba por entender que o novo sistema somente irá beneficiá-los. E tudo fica em paz.

Mas, afinal, qual foi o estopim da revolta? Simples. Antigamente, quer no Brasil-Colônia, quer no Brasil-Império, o sistema de pesos e medidas era o obsoleto sistema português. Não havia regras. Tudo ficava a critério daquele que vendia, nem sempre honesto que, por vezes, não usava balança alguma para pesar mercadorias. Ele pesava os produtos com suas próprias mãos, confiando na sua “prática”, pois “mais valia a prática do que a gramática”. Balançando as mãos, dizia: “Pronto, o peso está certinho”. E assim por diante. Alguns até tinham balanças, mas eram velhas, defeituosas, viciadas; outros possuíam balanças primitivas, instrumentos pré-colombianos, com pedras no lugar de pesos. Não havia um método para se estabelecer um padrão. A decisão do negociante bastava. Não havia apelação. O povo pagava e levava a sua mercadoria confiando no arbítrio do senhor Joaquim, Antônio, Manuel... A população comprava uma libra disso ou um côvado daquilo. Mas, nem sempre, as libras e côvados eram iguais em todas as lojas, açougues ou casas de comércio. Variavam de lugar para lugar, de bairro para bairro, de rua para rua, de casa para casa.

No fim do reinado de dom Pedro II entra em vigência a lei 1.157, de 26 de junho de 1862. Agora, os comerciantes são obrigados a adotar o sistema métrico decimal. Não mais se pode dizer “uma libra”, mas “um quilo”; ou “um côvado” de chita, mas “um metro” de chita. Ora, a população não consegue entender, de imediato, que aquele “quilo” é igual à “libra”, tão conhecida de todos. E, destarte, surgem as desconfianças, depois as discussões e, finalmente, a confusão que acabara por gerar revolta e motim popular. Ah! como o povo é curioso! Simples! Esquipático! Rebela-se por algo que não entende e desconfia ser prejudicado.
Hodiernamente, muitas vezes sabe que está sendo lesado, porém...


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