Artigo

O erro do Jô

06 de Julho de 2020 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Paulo Rosa, Piratini, terceiro distrito - prosasousa@gmail.com

Jô Soares, de todos conhecido, dos mais desenvoltos entrevistadores do país, enviou, recentemente, breve e flamante carta ao primeiro mandatário. Jô o fez via Folha de S. Paulo, 24.6.20, pág. A3: “Carta aberta ao Ilmo. Sr. Jair BolSSonaro. ExcelentíSSimo! Volto a lhe escrever para que VoSSa Redundância me esclareça uma dúvida, já que o seu saber é notoriamente superior ao meu em todas as áreas, sobretudo nas áreas da filosofia e da política. A propósito: gostaria de saber se VoSSa Redundância já leu o livro sobre Churchill que estava sobre a sua mesa na hora da posse ou resolveu se aprofundar na biografia de outros políticos mais interessantes da mesma época? Aproveito também a minha ousadia para esclarecer um assunto que me atormenta: gostaria que VoSSa Redundância me explicasse o que pretendem dizer quando se referem à ala ideológica de seu governo. Dividimos, então, os ministérios entre os ideológicos e os que não têm ideologia nenhuma? Sei que este é um mistério digno de ser tratado com reverência, porém ouso dizer, sob pena de revelar um segredo de Estado, que a sua ideologia é a patafísica. Sim! Saudações! Ufano-me em dizer que VoSSa Redundância é o primeiro presidente patafísico do mundo!”

Não é propriamente um erro, caro Jô, mas longe estamos de um fenômeno patafísico. Verás, caso olhes com mais pormenor, tratar-se de questão ligada à apocoloquintose e às agonias avassaladoras que costumam acompanhá-la. Creio, cometeste mero lapso, involuntário esquecimento, e que em consonância estarias com nossa tese, uma vez tivesses lembrado, no ato, do que diziam historiadores antigos sobre o, assim digamos, despachado imperador romano Cláudio, 10a.C.-54d.C., cujo mando se desenrolou por seus treze últimos anos. O referido governante “tinha demonstrado a verdade do provérbio: um homem nasce ou rei ou idiota”, nas palavras de Sêneca. Este, seguindo ideias da época, afirmou: “Cláudio fora rei...e idiota”. Em Apocoloquintose do Divino Cláudio, Sêneca estende-se em sua sátira e se refere sobretudo à morte do imperador e a alegria que ela despertou no seio da população. Gritavam: “fora da casa seja acompanhado com muitos vivas!”

Nero, dizem, ao fazer no Senado um elogio fúnebre a Cláudio, destaque ao saber, “a nenhum dos presentes foi possível reter a gargalhada” (Pensadores, Sêneca, pág.266). O divo Augusto ali falou sobre múltiplos assassinatos de parentes e auxiliares, ordens de Cláudio: “Oh, Senadores, nem sei o que devo dizer...matou Crasso, Magno e Escribônia: três patetas, mas nobres; Crasso, tão bobo era que até podia ser imperador” (pág.267).

Nesse então não era hábito engordar currículos, até porque os papiros andavam caros e os escrevinhadores, escassos, mas no enterro do divo Cláudio era tal o número de corneteiros, tanta a algazarra, que até “Cláudio compreendeu que estava morto” (pág.268).

Jô, é apocoloquintose, do grego colocynte, transformação em abóbora.


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