Artigo

O engenheiro-arquiteto Stanislau Szafarsky

14 de Fevereiro de 2020 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Luís Rubira, professor do Departamento de Filosofia da UFPel

Na busca por decifrar a identidade do polonês que projetou o Theatro Guarany (na semana anterior mostrei que em 1914 ele atuava como engenheiro em Curitiba e que em 1918 surge como presidente de uma Sociedade Polonesa em nossa cidade), dirijo-me ao Mercado Central de Pelotas. Lá encontro José Ricardo Szafarsky, que me foi apresentado por uma de suas filhas, Samantha. O neto de Stanislau mostra-me então uma pasta contendo quatro documentos e um álbum de fotografias. São papéis cuidadosamente preservados ao longo de décadas e, como pesquisador, compreendo que o melhor a fazer é reproduzir seu conteúdo, pois pelo menos três deles são fontes primárias.

O primeiro documento é revelador. Ele atesta, de fato, a existência da "Sociedade Polaca Henryk Sienkiewicz" e informa que ela foi fundada "nesta cidade em 10 de Outubro de 1920". Trata-se de um Título de "Empréstimo Interno" emitido com o objetivo de arrecadar dinheiro para o aumento "do prédio próprio onde funciona a Sociedade", ou seja, na "Rua Liberdade n. 361" (atual rua João Pessoa). Este Título é assinado em Pelotas, no dia 1/2/1921, por seu Presidente: Stanislau Szafarsky (sim, com "y" ao final do sobrenome).

O segundo, um Título de Eleitor da 13ª Zona de Dom Pedrito, indica que Stanislau tinha Domicílio eleitoral "Nesta cidade" (no verso do documento ficamos sabendo que ele fez ali o "Exercício do voto" durante os anos de 1933 a 1935). No Título, com data de inscrição no Cartório em 11/2/1933, surgem pela primeira vez dados a seu respeito: "Filiação: José Szafarsky. Naturalidade: Polonês. Idade: 59 anos. Data de Nascimento: 3 de março de 1873. Estado civil: Casado. Profissão: Engenheiro". É a primeira vez também que vemos uma imagem sua: uma fotografia em preto e branco, na qual ele aparece vestido de terno claro, colete e gravata.

O terceiro documento é um Salvo Conduto da "Repartição Central de Polícia. Delegacia de Ordem Política e Social", emitido na cidade de Pelotas em 25/2/1943. Este documento repete algumas informações do anterior, mas aporta também novos dados e altera a data em que ele teria nascido: "Nacionalidade: Polonês. Idade: 71. Nascimento: 13/03/1873. Domicílio: Pelotas. Profissão: Arquiteto Construtor. Filiação: José Szafarski e Victoria Szafarski. Residência: Ismael Soares n. 6". Na parte inferior do Salvo Conduto o destino parece ser "Basílio", bem como a seguinte observação: "Junta certidão de registro de estrangeiros de Pelotas, fl. 5 fls. 64". Neste documento aparece também uma foto sua de perfil, na qual ele está visivelmente com mais idade. Analisando sua assinatura, vemos que novamente seu sobrenome aparece ao final com "y".

Afora estas fontes primárias, temos a segunda via de um atestado emitido em 12/11/1974 pelo Cartório do Registro Civil de Nascimentos, Casamentos e óbitos da 2ª Zona da Comarca de Pelotas. De modo retrospectivo, o atestado dá conta de que "nesta cidade de Pelotas aos dezesseis dias de agosto de mil novecentos e cinquenta (...) à rua Ismael Soares, número 7 (...) de esclerose coronária, faleceu Stanislau Szafarski (...) engenheiro construtor, natural da Polônia e aqui residente, filho de José Szafarski e de Vitória Szafarski, ambos falecidos e naturais da Polônia. Casado em primeiras núpcias com Conceição Ferreira da Silva Szafarski, deixando um filho: José, com trinta anos de idade. Casado em segundas núpcias com Carlota da Silveira Szafarski, não deixando descendentes".

Descubro mais tarde que o filho de Stanislau, José, nasceu em 5 de Janeiro de 1920 (mesmo ano em que iniciaram-se as obras de construção do Guarany), seguindo carreira militar até chegar a tenente do Exército em Pelotas. Descubro também num periódico carioca que sua esposa, dona Conceição da Silva Szafarski, faleceu no ano de 1929 (O Jornal, 1/12/1929). Ao levar adiante outras pesquisas nada mais encontro, exceto que a pronúncia das primeiras letras do sobrenome Szafarsky soam como "chá", algo que fez com que famílias brasileiras (e por uma questão de ordem fonética) passassem a ser identificadas como "Chafarski".

Ao cabo de alguns dias em que me deixei absorver pela identidade de Stanislau, vou até a travessa Ismael Soares para ver onde ele morava. A casa (de número 6 ou 7) não existe mais, mas o endereço mostra que ela fazia esquina com a rua Andrade Neves. Habitava ele, assim, na quadra mais nobre do centro urbano da cidade (a outra Travessa dá para a lateral da Bibliotheca Pública Pelotense). E saio dali pensando que não seria nada mal se, às vésperas do Guarany completar cem anos, algum outro pesquisador fizesse esforços para reconstruir a trajetória desse importante engenheiro-arquiteto polonês. Pois ele, tal como o italiano José Isella (tão bem resgatado por Ceres Chevallier), certamente projetou muitos outros prédios em nossa cidade.


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