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O doutor Amarante

10 de Abril de 2020 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Luís Rubira, professor do Departamento de Filosofia da UFPel

Médico que atuou "do palácio à choupana", ou seja, em todos os estratos da vida social pelotense, a popularidade do doutor Amarante bem pode ser testemunhada por diferentes membros de uma mesma família, a saber: João Simões Lopes (1874-1937), autor do livro Cultura do arroz (Pelotas, Livraria Universal, 1914); seu irmão Ildefonso Simões Lopes (1866-1943), que chegou a ocupar o cargo de ministro da Agricultura no Brasil; e seu sobrinho João Simões Lopes Neto (1865-1916), intelectual e escritor sul-rio-grandense.

Nascido em 12 de novembro de 1863 na localidade de Baú, então município de Cacimbinhas (atualmente Pinheiro Machado), Francisco de Paula Amarante passa a residir em Pelotas já aos três anos de idade (Almeida, Vultos da Pátria, v. 3, 1965, p. 84). Aos 18 anos o encontramos prestando o "exame de filosofia" no Colégio Americano, uma escola recém-criada no bairro Engenho Novo, no Rio de Janeiro, que preparava "alunos para todas as academias do Império" (Jornal do Comércio, RJ, 2/4/1881, p. 5). Formado pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro em 12 de janeiro de 1887 (A Federação, 24/1/1887, capa), um dos primeiros casos em que o vemos atuando em Pelotas surge nas memórias de João Simões Lopes (num manuscrito de 1931/1932), que narra a morte de seu sobrinho Oscar de Freitas Simões Lopes (1888-1895) em decorrência do tifo (Lorena Almeida Gil, Um mal de século: tuberculose, tuberculosos e políticas de saúde em Pelotas, RS, 1890-1930, 2002, p. 232).

Agindo do mesmo modo que seu pai, Felicíssimo Manoel Amarante, que ajudou a elaborar a Lei Orgânica do Município de Pelotas (promulgada em 2 de setembro de 1892), o doutor Francisco de Paula Amarante atuou na concepção do Estatuto da União Gaúcha, inaugurada oficialmente em 20 de setembro de 1899, cujo primeiro artigo antecipava em muito a formação dos CTGs: "O fim principal da União Gaúcha é relembrar, honrar e conservar as tradições rio-grandenses" (Carlos Reverbel, Um capitão da guarda nacional, 1981, p. 192). Sociedade que inicialmente teve como diretor Justiniano Simões Lopes (irmão de João Simões Lopes e de Ildefonso Simões Lopes), cabe lembrar que o doutor Amarante presidiu a sessão que elegeu João Simões Lopes Neto para o cargo de presidente em 1906 (Sica Diniz, João Simões Lopes Neto: uma biografia, p. 143).

Conhecido já no final do século 19 por sua participação ativa na cultura local e regional, é enquanto profissional que ele se manifesta nas páginas dos jornais, tal como quando toma partido pela produção de um medicamento local, elaborado pela Farmácia e Drogaria de Eduardo C. Sequeira, em Pelotas: "Como clínico prefiro, por educação e por índole, aos preparados estrangeiros, os preparados nacionais. E quando um preparado nacional, pela sua fórmula inteligente, pelo seu preparo meticuloso e cuidado e pelo seu acondicionamento apropriado aparece, logo encontra em mim um propagandista apaixonado. Não hesito, portanto, em recomendar, como um excelente medicamento, a Pomada Albirina, que bem merece a grande aceitação que tem tido e que faz jus a ocupar o primeiro lugar entre os medicamentos congêneres conhecidos até hoje. Pelotas, 20 de junho de 1898 - Dr. Francisco de Paula Amarante" (A Federação, 25 de Abril de 1913).

Nas primeiras décadas do século 20, sua popularidade cresce ainda mais. Nos jornais circulam anúncios sobre o "ilustrado clínico" que dá consultas diariamente na Farmácia Rolim (Opinião Pública, Pelotas, 1º/6/1908), publicam-se anúncios de família em gratidão por sua atuação como médico" (A Opinião Pública, 18/5/1911), bem como propagandas de novas medicações produzidas em Pelotas que ele recomenda vivamente, tal como o "Galenogal", um "excelente antissifilítico" elaborado pelo Clínico Dr. Frederico W. Romana (Caxias, órgão independente, 13/2/1930).

Profissional também conhecido por sua atuação política em todo o estado do Rio Grande do Sul, ele falece em Pelotas a 29 de junho de 1937. Poucos dias depois, o deputado Ildefonso Simões Lopes Filho faz um longo discurso na Assembleia Legislativa do Estado, no qual o destaca como "uma das figuras mais prestigiosas do corpo médico da cidade de Pelotas", elogiando o "insuperável espírito caritativo" daquele que retirava dinheiro "de seu próprio bolso para auxiliar os menos favorecidos"; o "velho e glorioso batalhador, maioral do Partido Federalista da minha cidade" que "não obstante a sua combatividade no terreno da sua ideologia (...) jamais colocou os interesses de sua terra e do Rio Grande do Sul abaixo dos veementes pendores políticos que agitaram a sua alma" (A Federação, 2/7/1937). 

Médico humanista que soube separar sua atuação profissional daquela exercida no âmbito da política partidária, que seu exemplo ético possa ser útil nestes tempos difíceis pelo qual atravessa nosso país.


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