Opinião

O dia que a Espanha parou

15 de Março de 2019 - 08h46 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Cássio Furtado

O dia era 11/3/2004. Eram 7h39min da manhã quando a história da Espanha mudou para sempre.
Bombas foram colocadas nos trens metropolitanos que fazem o deslocamento para Madrid, a capital do país, com uma população de mais de três milhões de habitantes.

Em questão de minutos, 193 homens e mulheres foram mortos. Ao todo, entre mortos e feridos, mais de dois mil cidadãos comuns, naquele momento, tornaram-se inesperados personagens na história de um país na guerra contra o terrorismo.

Nessa semana, a Espanha relembrou os 15 anos dos ataques terroristas que mudaram a sua história para sempre.

Horas após os ataques, o primeiro-ministro espanhol, José María Aznar, convocou uma coletiva de imprensa. O objetivo era explicar o ocorrido e antecipar as primeiras medidas do governo espanhol para caçar os terroristas responsáveis.

Foi então que Aznar cometeu uma das maiores gafes políticas de todos os tempos: ele responsabilizou o grupo terrorista basco ETA pelos ataques.

A essa altura, o ETA, que significa Pátria Basca e Liberdade, já tratava uma guerra de quatro décadas contra o governo espanhol. O objetivo do grupo era obter a independência do País Basco, uma tradicional região da Espanha, com idioma e cultura próprios e uma longa história de separatismo.

O ETA, portanto, parecia uma escolha óbvia quando Aznar fez o seu discurso. O problema é que ele errou, e feio.

Cerca de um ano antes, em 19/3/2003, os Estados Unidos e uma coalizão de dezenas de países aliados invadiram o Iraque, iniciando a Guerra do Iraque.

A justificativa oficial era que o Iraque possuía armas químicas, biológicas e nucleares, e que Saddam Hussein, o seu ditador, poderia auxiliar grupos terroristas em um futuro ataque aos EUA ou aos seus aliados. A França e a Alemanha foram contra a invasão estadunidense, inclusive bloqueando o uso de tropas da ONU para tal propósito.

Entre os principais aliados dos EUA na Guerra do Iraque estavam o Canadá, a Austrália, a Coreia do Sul, a Polônia e a Espanha.

A participação espanhola ocorreu, justamente, por razões ideológicas. Aznar era o líder do Partido Popular, conservador. Os EUA, desde 2001, eram governados por George W. Bush, republicano, também conservador.

A aliança entre os conservadores espanhóis e estadunidenses resultou na entrada da Espanha na guerra e também foi a responsável por enfurecer o grupo terrorista Al Qaeda, liderado por Osama bin Laden.

O Al Qaeda foi o responsável por atacar os EUA em 11/9/2001, quando mais de três mil pessoas morreram nas Torres Gêmeas, em Nova York, no Pentágono, em Washington D.C. e no voo 93, que caiu na área rural de Shanksville, no estado da Pensilvânia.

A Guerra ao Terror iniciada pelos EUA, e que incluiu as guerras do Afeganistão e do Iraque, teve início para combater o Al Qaeda.

Quando a Espanha aliou-se ao governo Bush para invadir o Iraque, o país tornou-se um alvo natural dos mesmos terroristas que atacaram os EUA. E o ataque à Espanha tornou-se realidade no 11/3/2004.
Três dias depois, a Espanha realizou eleições parlamentares. Agendadas há meses, foram mantidas para demonstrar estabilidade no país que havia sido recém-atacado. O partido político de Aznar, o Partido Popular, era considerado amplo favorito pelas mais variadas pesquisas.

Mas a população não perdoou a imensa gafe do líder do governo ao responsabilizar o grupo terrorista errado pelo maior ataque terrorista da história de seu país. Aznar foi derrotado pelo Partido Socialista, liderado pelo desconhecido José Luis Rodríguez Zapatero, e sairia da vida política. A Espanha, no novo governo, deixaria de apoiar os EUA na Guerra do Iraque.

Em 2018, o grupo terrorista ETA, erroneamente responsabilizado pelos ataques, anunciaria o seu fim.
A história da Espanha, no entanto, já estaria mudada para sempre.

 


Comentários

Diário Popular - Todos os direitos reservados