Artigo

O despertar do macho

23 de Maio de 2020 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Paulo Gaiger, professor do Centro de Artes da UFPel

Os homens gregos consideravam as mulheres só levemente acima dos animais domésticos da casa. A diferença, quem sabe, entre a cabra e a esposa, era que esta garantia a prole, falava, cantava e, não raro, se indispunha com a submissão forçada. Esse feminismo de esquerda! Lamentavam os cidadãos na ágora quando mulheres se rebelavam! É provável que a cabra, a ovelha e a vaquinha da casa recebessem mais atenções do patriarca. Às mulheres, o confinamento, a limpeza, o almoço e a janta. Os prazeres, as confidências, as armações políticas eram coisas de homens. A exclusão das mulheres foi o grande erro grego. Se a polis fosse equânime, mulheres e homens participariam igualmente das decisões e poderiam agir livremente desde que não prejudicassem a si mesmos ou a alguém. Arranjos múltiplos e consensuais, por que não?

A Grécia de Aristipo de Cirene e de Safo não alcançou. Antes, os homens já temiam as mulheres. Por isso, inventaram religiões e mitos misóginos, formaram exércitos para protegerem suas terras e a si mesmos, ergueram templos e monumentos se auto-homenageando. Odin, Allah, Jeová, Deus, Indra, todos representam o desprezo dos homens às mulheres. O ardil do macho que oculta sua própria estupidez e temor. Na sua vez, o cristianismo condenou todos os prazeres terrenos, as mulheres e a relação sexual que não fosse para gerar filhos. Orgasmos, nudez e banhos, nem pensar. A tortura, a perseguição, o extermínio, a inquisição e as catedrais foram estratégias para a imposição do medo e da disciplina.

Recentemente, algumas correntes evangélicas que integram o governo fascista condenaram o rock’n’roll e os Beatles porque, segundo elas, estimulam o sexo e liberam oxitocina, dopamina e endorfina, três erros da mãe natureza. Delírios! Detrás da repressão em tantos séculos, o mutante vírus do machismo, o mais letal de todos, inoculado em homens e, às vezes, também em mulheres. De bebês, os meninos têm de provar todos os dias para si mesmos e para os outros que são machos. A prova vai desde o tamanho do pinto aos modos como brinca, se gosta de futebol, de dar porrada, se chora ou não. Quando nasce uma menina, alguém diz: vai dar trabalho. Quando um homem tira sarro ou ofende a outro homem, o chama de mulherzinha.

Na moral das três maiores religiões vivas, o homem que tem relações com outro homem é condenado socialmente ou à morte porque se iguala a uma mulher. No mundo macho, o pênis é mais importante que o conhecimento e que a razão. O vírus do macho, em sua versão mais abjeta e nociva, parecia adormecido ou se manifestava apenas isoladamente. Mas é o próprio vírus, eliminando vidas e direitos humanos, que ganhou espaço com Bolsonaro na presidência. O machismo latente foi lançado à superfície como ideologia de governo. Machos agora podem descarregar sua raiva contida e apontar sua pistola para mulheres, homossexuais, trans, indígenas, negros e pobres.

O presidente sobrevive da adoração de machos brasileiros. Quando chama a Covid-19 de gripezinha, quando despreza a ciência, quando favorece as corporações, quando mente descaradamente, desperta o macho que pulsa em cada um dos homens e mulheres que o apoiam. O macho ri da ciência e das artes, o macho despreza a justiça, o macho sabe tudo, o macho quer a impunidade, o macho não lê, o macho mente. Machos gostam de estar com machos. O governo produz fakes e circo ao gosto dos machos. É como se escrevesse cartas para si mesmo, elogiando-se. Mas a terra é redonda e gira em torno do sol. Os gregos já sabiam. O macho é inseguro e débil! Freud alertou. O macho facilmente se converte em um fascista. Wilhelm Reich escreveu.


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