Artigo

O dedo

26 de Outubro de 2020 - 07h55 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por Paulo Rosa, Hospital Espírita, Caps Porto, Ambulatório Saúde Mental, Telemedicina PM Pelotas - prosasousa@gmail.com

Nas montanhas da cadeia Atlas no Marrocos, as quais margeiam o grande Saara, vê-se ao longe, escrito em letras monumentais na própria montanha, os dizeres, em ordem decrescente de importância: acima de todos, Alá - a seguir, o Rei - por último, a Nação. Com tal especificação em mente, o povo berbere, os nômades do deserto imenso, guardam uma tradição na qual o que não sabe bem escolher uma esposa - ali assim funciona -, passará a ser chamado de ‘dedo ruim, ou dedo podre’, cabendo-lhe, como recurso ante a própria inaptidão, recorrer àquelas instâncias crescentemente divinas, sendo o acesso a Alá o passo mais alto, mais extremo.

Essa sabedoria do povo itinerante ultrapassou fronteiras. Alcançou a China, onde acrescentaram um toque de humor sino, consagrando-se a expressão ‘quando o sábio aponta a estrela, o idiota olha para o dedo’, persistindo a ênfase sobre o dedo, no caso, mal interpretado, como se fosse ele, o dedo, o elemento princeps.

Aqui em Piratini, com seus quatrocentos metros acima do nível do mar, o ditado passou a ser ‘dedo chocho’, mantendo-se o sentido original de ‘boca aberta extremo’ e espraiando-se para além de meras escolhas amorosas. Passou a designar-se assim todo ser que se mostre repetidamente inábil na escolha de pares, ajudantes, subalternos, companheiros, auxiliares, incluindo-se aí tanto a arena política quanto profissional de quaisquer naturezas.

Dou exemplo: vosso líder repete a fartar escolhas trôpegas de dirigentes trôpegos para chefiar nada menos que a educação. Um dos escolhidos a dedo mostra-se por demais criativo na elaboração do currículo, inventando cursos e doutorados que nunca fez, para dar ‘volume’ ao CV. Outro, pesquisado pelo dedo fatídico, acredita que passando em frente aos portões da Harvard, equivaleria, de boa fé, a estar inscrito num mestrado ou coisa parecida. Um terceiro, vasculhado com o dedo podre, mas em riste, mostrou-se beletrista, comparou alhos com bugalhos, digo, Kafka com comida árabe (cafta). Outro mais, indicava palmadas às crianças, mas com raiva, para que compreendam a mensagem. No mesmo balaio entra o ataque a Paulo Freire. Sem comentários.

‘Sou do tamanho do que eu vejo, não do tamanho de minha altura’, oferta de Fernando Pessoa, em O guardador de rebanhos. Alguma alma boa, e com estômago forte, que mostre e explique aí a vosso líder o quanto elucida o português na escolha de auxiliares. Uma vez que o dedo aponte errado, ele permanecerá apontando errado, mostram os mestres da suspeita freudo-nietzschiana, em qualquer dos alfarrábios. Assim, parcas esperanças. O dedo seguirá estulto, ignaro, néscio, inculto, imbecil, mentecapto, ignorante, palerma, tolo, inepto, incompetente, impróprio, inábil, desqualificado.

Mas, brasileiros caminhamos, Pessoa na alma, e a ideia de que ‘sou do tamanho do meu voto’, a começar pelo meu pátio. Impermanência há, lembremos.


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