Artigo

O censor

20 de Setembro de 2019 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Sergio Cruz Lima

Em 9 de novembro de 1940, às 5h, na Gare du Nord, um cidadão salta do trem recém-chegado de Berlim. Sua cabeça lateja: festejara 30 anos no dia anterior. Para recuperar-se da viagem, adentra uma brasserie e pede um cognac. Nas plataformas, jovens se oferecem para carregar as malas dos viajantes em trânsito: é assim que se alimentam os desempregados. O viajante depara-se com a Paris da ocupação alemã. A capital jaz silenciosa. Nas ruas há raros táxis, poucos carros e alguns ônibus. Bicicletas transitam apressadas. Saint-Germain e Passy estão vazios: nos bairros da burguesia, os parisienses ainda não retornaram de suas casas de campo. Os alemães caminham em grupos. No metrô - que não pagam! - instalam-se nos vagões de primeira classe. 

No início do expediente, o misterioso cidadão ingressa no prédio da Avenue des Champs-Élyssés, 52, sede da Propagandastaffel. É acolhido por seu chefe, que lhe explica o que se espera dele: supervisionar as atividades dos editores franceses, conceder ou não autorizações de publicar, distribuir o papel com base em critérios ideológicos, zelar para que autores judeus, franco-maçons e antigermânicos sejam reduzidos ao silêncio, exaltar os encantos da Alemanha nazista etc. Ao longo da guerra, Gerhard Heller, sonderführer, será o mandachuva das letras francesas sob o controle alemão. Apoiado pelo Instituto Alemão e pela Embaixada da Alemanha em Paris, vai navegar nas brumas da censura e da propaganda.

Heller foi escolhido por seu conhecimento de francês: estudou literatura na Faculdade de Toulouse, conhece as pessoas influentes da capital francesa, é tão francófilo quanto Otto Abetz, embaixador do Reich em Paris. O que, é óbvio, não o impede de ter ingressado no Partido Nazista em 1934 e de ser fiel ao Führer. Aliás, como atestado de seu patriotismo, acabadas as apresentações com a equipe de seu serviço, Heller dirige-se à Câmara dos Deputados. É verdade, não para honrar a França que tanto ama, mas para participar de um ato em homenagem ao putsch de Munique, perdido por Adolf Hitler 17 anos passados. Como tem natureza sensível, derrama uma lágrima diante dos estandartes nazistas entreabertos no hemiciclo.

Quarenta e oito horas após, herr Heller vai dar prova de seu grande amor pela França. Em 11 de novembro, os estudantes parisienses decidem festejar a vitória de 1918. Embora quaisquer ajuntamento de pessoas tenha sido proibido e ainda as autoridades tenham se negado a considerar o 11 de novembro como feriado, a juventude francesa marca encontro na Place de l´Étoile. Não há líderes. Não há bandeirolas. Não há porta-vozes. Uma grande passeata avança pela Avenue Victor Hugo atrás de uma imensa bandeira tricolor da República Francesa. Outros grupos se formam na Avenue Champs-Elyssés. Os policiais de Paris, pelerines enroladas nos braços, tentam dispersar a manifestação. Não conseguem. O patriotismo, o amor pelo seu país, a sua história, a sua gente falam mais alto. Pela primeira vez, desde a entrada dos alemães em Paris, os estudantes se manifestam em peso. Reagrupam-se ao longo das avenidas que conduzem ao Túmulo do Soldado Desconhecido. Heller observa, desconcertado. Caminhões com tropas nazistas despontam nas ruas adjacentes. Armados de cassetetes, soldados avançam sobre os estudantes. Aqui e ali, metralhadoras disparam rajadas para o ar. A situação dura horas. Tiros são disparados. A multidão não arreda pé. Estudantes são aprisionados.

Finda a guerra, esse homem de grande coração tentará absolver-se e ser absolvido pelos homens de letras. Dirá ter protegido a literatura francesa, ter salvo alguns de seus mais eminentes e destacados representantes, defendido os mais pobres...


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