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O bonde - um resgate histórico

19 de Setembro de 2020 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Sergio Cruz Lima, colaborador

No início eram os burros - pobres muares! - os responsáveis por conduzir a população urbana e trabalhadora em direção ao progresso. Aos bondes ajaezados e atrelados, eles precisavam mostrar força nos músculos das patas e disposição para tirá-lo. A jornada diária de trabalho por vezes varava 18 horas. Ora, se não havia leis trabalhistas, quem dirá Sociedade Protetora dos Animais! E os burricos tinham lá suas manhas, suas idiossincrasias. Havia os que somente atendiam pelo nome; mas havia também os que somente obedeciam a cocheiros conhecidos. Quando cansados - novidade! - empacavam e se negavam terminantemente a prosseguir a viagem. E a história vem de longe.

No mundo, o primeiro bonde foi utilizado pela Swansea and Mumbles, no sul do País de Gales, no Reino Unido. De tração animal, era tirado por cavalos e, num segundo momento, por máquinas a vapor e energia elétrica. O Mumbles Railway Act foi aprovado pelo Parlamento britânico em 1804. O primeiro bonde americano, o horsecar, foi implantado nos Estados Unidos e desenvolvido a partir das linhas de diligências. Esses bondes eram de tração animal, geralmente formados por parelhas de cavalos ou burros. Ocasionalmente, outros animais foram colocados em uso, ou - pasmem! - seres humanos, em situações de urgência. O primeiro bonde a ser visto no Império do Brasil atravessou a cidade do Rio de Janeiro puxado por dóceis burricos em 1859, trinta anos antes da proclamação da República. Pertencia à Companhia de Carris de Ferro da Cidade e fazia um circuito de sete quilômetros com capacidade para 17 pessoas entre o Rocio, atual praça Tiradentes, e a Tijuca, linha inaugurada com a presença do imperador Dom Pedro II. A empresa faliu em 1866, depois de permutar a tração animal por máquinas a vapor. Os bondes elétricos somente começaram a desembarcar no Brasil em 1892, já no Brasil-República. Recém-chegados, foram vistos por alguns com medo e admiração.

Em "O Bonde e a Cidade", escreve Oswald de Andrade: "Eu tinha notícia pelo pretinho Lázaro, filho da cozinheira de minha tia, vinda do Rio de Janeiro, que era muito perigoso esse negócio de eletricidade. Quem pusesse os pés nos trilhos ficava ali grudado. Preto e durinho! E seria facilmente esmigalhado pelo monstrengo". Machado de Assis, em um de seus livros, também não deixa passar em brancas nuvens a história do tal de bonde elétrico. O fundador da Academia Brasileira de Letras escreve: "O que me impressionou, antes da eletricidade, foi o gesto do cocheiro. Os olhos do homem passeavam por cima da gente que ia no meu bonde, com um grande ar de superioridade. Sentia-se nele a convicção de que inventara, não só o bonde, mas a própria eletricidade".

Personagem muito querido entre os cariocas, o bonde exercia funções variegadas e curiosos agnomes: Bonde caradura: aquele de segunda classe, destinado inicialmente ao transporte de mercadorias. Era atrelado ao bonde principal e custava a metade do preço. Bonde de ceroulas: bonde de gala, forrado com brim branco para conduzir senhores abonados a eventos sociais. Bonde-salão: reservado para eventos de autoridades, casamentos e batizados na cidade do Salvador, Bahia, a partir de 1911. Mas, calma! Tem mais. Bonde camarão: pintado em vermelho, daí o nome, tinha capacidade para 51 passageiros sentados. Foi o derradeiro bonde a circular em São Paulo. Bonde dos mortos: servia aos cortejos fúnebres. No carro principal seguiam os parentes; no reboque, o morto. Bonde Gilda: o apelido se reporta à atriz Gilda Hayworth, no clássico homônimo do cinema noir. Foi o mais luxuoso bonde a circular em São Paulo, dispondo de calefação automática. Teve similares. Em Vitória, o Tobias, revestido de espelhos, não permitia a viagem de homens sem gravata.

Agora, cuidado!, nos anos de 1920, um elefante fugiu do circo e derrubou um bonde com a tromba. O vocábulo trombada virou sinônimo de colisão.


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