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O asfalto é uma indústria de votos, impressiona o povo e não traz desenvolvimento

21 de Janeiro de 2022 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por Marcelo Dutra da Silva - ecólogo - dutradasilva@terra.com.br

O governador Eduardo Leite assinou nesta segunda-feira (17), em Pelotas, os convênios entre o Estado e 12 dos 24 municípios da região sul contemplados no programa Pavimenta. De acordo com o site oficial do governo, no total, serão destinados R$ 42,3 milhões para obras, sendo R$ 30,1 milhões do Tesouro do Estado e R$ 12,2 milhões de contrapartida das administrações municipais. Pelotas foi selecionada na faixa 3 do programa (cidades com mais de 200 mil habitantes) e vai receber R$ 4 milhões, que serão utilizados para a pavimentação das estradas do Engenho e do Passo dos Negros, além de iluminação em led e sinalização de rota para ciclistas, entre o campus Porto da UFPel e a rua Tiradentes, no bairro São Gonçalo. Como contrapartida, o município irá investir mais de R$ 1,7 milhão para as obras, chegando ao valor total de R$ 5.788.057,83 investidos na requalificação viária. À primeira vista, uma maravilha. Recursos serão empregados em infraestrutura, em benefício da mobilidade urbana. Mas, o asfalto na rua é nossa prioridade ou apenas a forma mais fácil do político aparecer?

A falsa sensação de desenvolvimento que o asfalto nos traz invade outras questões, por vezes não lembradas no dia a dia corrido da cidade. Uma capa de asfalto pode esconder décadas, às vezes séculos de história. Pior, pode desconfigurar o patrimônio e isso está acontecendo de maneira repetida e nos últimos tempos de forma muito mais intensa. Muitos parecem preferir a aparência do resultado imediato da pavimentação, mas cobrir uma via de asfalto é como tentar esconder com verniz as tábuas podres de uma cerca. As fragilidades seguem, os problemas permanecem e se agravam com o tempo. E esse é o tipo de escolha que tem reflexo na qualidade dos políticos que elegemos. E alguns dão tanta ênfase neste tema que fazem da aplicação do asfalto nas ruas uma bandeira, uma causa de primeira ordem. E sabemos que não é bem assim.

O asfalto na rua pode parecer ótimo, mas tem uma grande chance de deixar o que já é ruim pior, especialmente quando chega antes e/ou é aplicado na ausência de camadas estruturantes da infraestrutura urbana. E não faltam exemplos por aí. Às vezes é uma casca de "asfalto sonrisal" para amenizar o pó em dia seco ou o barro em dia de chuva, que vai durar pouco, pois não é de boa qualidade, que vai se esburacar todo porque a pavimentação não recebeu o devido preparo. E às vezes até é bem estruturado, em uma via qualificada pela sinalização, pontos de iluminação pública, mas segue rodeado pelo esgoto, que corre a céu aberto, em valetas de drenagem, em meio a domicílios sem acesso sanitário básico. E os exemplos estão por toda cidade.

De outra parte, a impermeabilização sistemática das ruas, em alternativa a outras formas de revestimento mais sustentáveis, que permitem a infiltração da chuva, acaba por acumular água na superfície. Em algumas situações não é preciso chover muito para formar pontos de alagamento e em outras a água que acumula corre pela superfície com maior velocidade, atingindo rapidamente as zonas ocupadas de baixadas planas e úmidas, que formam boa parte dos terrenos de expansão urbana em Pelotas. Quando o asfalto chega antes da drenagem pode ser determinante no prejuízo, ainda mais considerando o cenário de incertezas climáticas, que promete volumes aumentados de precipitação para os quais ainda não estamos preparados. E sinceramente, eu gostaria que os nossos representantes e aqueles que foram eleitos pelo voto da nossa região buscassem recursos para o investimento estruturante, para dar solução aos temas sensíveis do nosso cotidiano, porém com foco naquilo que se mostra mais urgente e prioritário. Talvez a gente não esteja conseguindo mostrar isso.


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