Artigo

Nosso Pinto viveu

13 de Julho de 2020 - 08h04 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por Paulo Rosa - Faculdade de Medicina UCPel - prosasousa@gmail.com

José Carlos Oliveira de Morais, pelotense, vulgo Pinto (1947-2020). Nós nos conhecemos em sala de aula na UCPel, janeiro de 1970. Estávamos na Pediatria da Santa Casa, eu ia expor um tema sobre crianças. Pinto na plateia. Aos poucos minutos da minha fala Pinto adormece. Achei aquilo divertido, resolvi acordá-lo, e, em conluio com seus colegas, dei uma forte batida sobre a mesa. Despertou-se num sobressalto. Todos rimos muito, ele mais que todos. Isso abriu caminho para uma bela amizade entre professor e aluno. Tempos depois, já mais íntimos, fui almoçar na casa dos Morais, todos presentes. De um extremo da mesa, Pinto pede que seu Alcides passe o pão: ‘chuta o pão daí, pai’. Seu Alcides, ex-goleiro do Pelotas, levantou-se e literalmente chutou o pão, passou raspando a cabeça do filho. O dono da casa era o mais bagunceiro deles. Dona Aldinha ria, discreta e deliciada. Apenas dois momentos que ilustram o estado de espírito que nutria nosso amigo. Qualquer de seus achegados têm dessas histórias.

O apelido, que até hoje se conserva em Pelotas, foi obra de sua mãe, que o viu nascer com cabelo escuro e arrepiado e, que logo depois passou a ser claro e liso. A mudança da plumagem consagrou o apodo do guri, relata ele em seu livro.

Justas as homenagens do Diário Popular ao dar destaque a José Carlos. Na edição de 6.7.20, seção de esportes, José Cruz dedicou-lhe matéria especial, destacando a projeção no país, na modalidade tênis em cadeira de rodas. Foi um pioneiro no incentivo do esporte paraolímpico, tendo sido devidamente destacado por Guga Kuerten e pelo Comitê Paraolímpico Brasileiro, representando o país nos Jogos de Atlanta (EUA), em 1996, e ainda chegando a hexacampeão brasileiro. A jornalista Camila Faraco deu prosseguimento, enfatizando o lado generoso e inclusivo do Pinto, que soube fundar, em 1980, o Centro de Vida Independente do Rio de Janeiro, onde buscava-se uma política de total autonomia para pessoas com deficiência, coisa que fez para consigo próprio, valorizando o que estava vivo na sua pessoa.

Pinto foi mais do que um atleta invulgar. Chegou, como médico, a professor titular de Patologia e pesquisador na área de doenças do sangue, na UFRJ, destacando-se com artigos internacionais e, mais além, pelo acolhimento recebido de seus alunos. Aliás, nesse aspecto Pinto foi ímpar mais uma vez: quando aluno ele nunca se posicionou nessa posição _ prêmio que recebi como professor _ sempre foi apenas um colega mais jovem que sabia questionar com firmeza e cordialidade. Assim procedeu ele quando aluno e quando professor.

Pinto viveu a vida. Tinha 25 anos quando, no Rio, um assassino tentou matá-lo, pelas costas. O infeliz não conseguiu. Deixou-o paraplégico, mas ainda mais decididamente vivo. Viveu seus amores, amou seus filhos, viajou o mundo. Soube amar-se e amar. À moda Nietzsche: o que não me mata me fortalece.

Melhor de tudo: Pinto era Gato Pelado. Entendes?

 


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