Artigo

Nossas maçanetas

14 de Maio de 2022 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por Thais Russomano

Era o ano de 1995 quando o cinema viu chegar às telas As pontes de Madison, do diretor e protagonista Clint Eastowood (Robert Kincaid), que contracenava com a atriz principal Meryl Streep (Francesca Johnson). Na história, Robert, fotógrafo da National Geographic, corria mundo atrás de belas imagens para clicar, quando chegou, por acaso, à fazenda da família de Francesca. Ela então se dispôs a ajudá-lo a explorar a região e os dois acabaram passando quatro dias juntos _ apenas quatro, mas tempo suficiente para suas vidas mudarem para sempre. A paixão entre o solitário fotógrafo e a tradicional dona de casa, mãe e esposa nasceu com a força avassaladora de um gigantesco tsunami.

Uma cena marcante traz Francesca e o marido dentro do carro parado num semáforo vermelho. Logo atrás, está Robert que começa a buzinar, numa última súplica. Francesca coloca a mão na maçaneta de sua porta e, por alguns instantes, pensa e repensa no que fazer. Ela sabe bem que abrir ou não a porta trará consequências indeléveis à sua vida.

Momentos assim inevitavelmente nos atropelam, sem pedir licença, ao longo de nossa existência. Com a mão na maçaneta, ficamos atônitos, paralisados, pois sabemos que estaremos condenados a viver com qualquer que seja a decisão tomada. Isso me traz algumas palavras de Cora Coralina: "Mesmo quando tudo parece desabar, cabe a mim decidir entre rir ou chorar, ir ou ficar, desistir ou lutar; porque descobri, no caminho incerto da vida, que o mais importante é decidir".

Concordo com Cora! Erroneamente, ligamos uma decisão a uma ação, como ir ou lutar. Talvez, as decisões que têm o poder de moldar nossas vidas dispensem qualquer ação. É o ficar e o desistir de Cora. É a mão inerte na maçaneta. É uma porta fechada para sempre.

 


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