Artigo

Noel e Cartola

15 de Janeiro de 2022 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por Sergio Cruz Lima

Joia rara de vida breve, Noel Rosa, filho da Vila Isabel, Rio de Janeiro, nasce em 1910. O parto a fórceps causa-lhe um defeito no queixo, que o acompanha para sempre. Além disso, nasce com hipoplasia da mandíbula, uma tal Síndrome de Pierre Robin. Poeta, boêmio, sambista, compositor e bandolinista, a inspiração de Noel está nas ruas da sua amada cidade natal: damas da noite, hábitos populares, jogo do bicho, lamúrias de amor, rodas de samba.

Ao lado de Marília Batista, no Programa Casé, o poeta forma uma das duplas mais famosas do rádio brasileiro. E a cantora se transforma em uma das intérpretes favoritas de Noel. Em 1932, começa a parceria mais perfeita de sua carreira. Com Vadico, apelido de Osvaldo Gogliano, Noel compõe clássicos como "Feitiço da Vila", "Conversa de botequim", "Pra que mentir" e "Feitio de oração", no qual escreve com sabedoria: "Sambar é chorar de alegria / É sorrir de nostalgia / Dentro da melodia".

Jovem de várias namoradas e amante de muitas mulheres, contrai matrimônio, mas é apaixonado pela bela Ceci, a "prostituta do cabaré", uma mulher de vida fácil com a qual manterá um longo caso. Dá-lhe presentes, joias, perfumes; ela o compensa com tórridas noites de amor. Em apenas 26 anos de vida, tuberculoso, Noel Rosa compõe um sem-número de belezas, uma festa de raro brilho, humor e muita inteligência. Mais: oferece uma contribuição fundamental na legitimação do "samba de morro" no asfalto, ou seja, entre a idade média e o rádio, principal meio de comunicação em seu tempo. Em 2016, é agraciado in memoriam com a Ordem do Mérito Cultural do Brasil, no grau de grão-mestre.

Nos idos de 1919, aos 11 anos de idade, Angenor de Oliveira é apenas mais um menino que se compraz em acompanhar a construção do Estádio das Laranjeiras, no bairro carioca onde reside. Também gosta de samba e desfila pela primeira vez fantasiado de diabo. Um "fuleiro diabo carioca"! Aos 15 anos, já no Morro da Mangueira, órfão de mãe e abandonado pelo pai, inicia-se na construção civil. Malandro, quer unir o útil ao agradável. Vira pedreiro: de cima dos andaimes, pode assoviar para as moças. Durante o descanso, reúne colegas, toca seu violão e esboça versos. A fama de pedreiro e sambista se espalha. Mas, segundo ele próprio, "não tem tempo para trabalhar". Alterna a profissão e outros ofícios com a carreira musical. Porém, no trabalho entre pedras e tijolos, ganha o nome que o tornará célebre. Vaidoso, detesta ficar com a cabeleira suja de cimento. Passa a usar chapéu. Simpatiza com o visual e o adota até nas horas de folga. "É um chapéu-coco, pra livrar da poeira na cabeça; faz minha farrinha com aquele chapeuzinho. Aí começam a me chamar de Cartola. E o apelido pega." O pedreiro Cartola é um dos sete fundadores da Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira; é ele quem escolhe as cores verde e rosa.

Poeta, compositor e violonista, casado com Dona Zica, autor de dezenas de composições, entre elas o grande sucesso de vendas "As rosas não falam", morre em 1980, vitimado pelo câncer. É considerado por Nelson Cavaquinho e Paulinho da Viola o maior sambista de todos os tempos. O escritor João Antônio vai fundo: para ele, Cartola é um gênio. "Sob a roupa suja de pó e cimento, esconde-se um gênio", escreve.


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