Editorial

No atoleiro e patinando

27 de Janeiro de 2021 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Quem tem acompanhado o noticiário econômico nos últimos dias certamente está atento às inúmeras declarações de preocupação por parte de entidades empresariais, sindicatos e trabalhadores ligados à indústria brasileira. A decisão da Ford de fechar suas três fábricas no Brasil em Camaçari (BA), Horizonte (CE) e Taubaté (SP) tem provocado grande insegurança sobre o futuro. Afinal, não é todo dia que uma montadora com mais de um século no país resolve dar adeus ao mercado. São muitos os impactos sociais que isso provoca nas regiões em que está instalada e, internamente, um custo alto em rescisões trabalhistas, indenizações, quebra de contratos e tantos outros encargos gerados pela interrupção definitiva das atividades.

Para além dos reflexos na própria Ford, seus trabalhadores e consumidores, o motivo de tanta atenção a este caso é o que ele pode significar com relação ao cenário brasileiro mais amplo. Notadamente, a indústria automobilística tem sido um termômetro do desempenho econômico. Quando as coisas vão bem, as montadoras também. Ou vice-versa. Em determinados momentos, inclusive, os incentivos a elas foram usados por governos como alternativa para movimentar o mercado, gerar empregos e aquecer o consumo.

Fato é que o alerta aceso pela Ford não é à toa. Há anos o país patina. Da euforia na primeira década dos anos 2000, passamos ao longo momento que continuamos convivendo com a demora em se estabelecer uma política nacional de desenvolvimento. No fim das contas, o que o Brasil quer ser amanhã? Temos falhado no incentivo à inovação, à ciência, ao empreendedorismo, ao turismo e tantas outras áreas. Há boas iniciativas? Evidente que sim. Isoladas, porém. Seja qual for a área em que o olhar for macro e especialistas forem consultados, haverá reclamações e dificuldades em estabelecer perspectivas claras.

A saída da Ford pode até ser episódio isolado. Mas é mais um dentre tantos sinais de que algo não vai bem. E enquanto os problemas reais ficarem em segundo plano, abafados por mediocridades políticas e governamentais, seguiremos patinando. Cada vez mais no atoleiro.


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