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Never Strawberry Fields

07 de Dezembro de 2019 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Paulo Gaiger, professor do Centro de Artes da UFPel

Assumi a direção de uma Fundação Nacional, acho que é de artes. Fui nomeado por minhas boas relações com a igreja e com a família palaciana. Não sei bem para que existe esta tal Fundação, mas antes de eu chegar, é certo que servia para as coisas do demônio. Agora vou dar um jeito. Sou contra esse esquerdismo que tomou conta do país, essas coisas de ideologia. Pois bem, a partir de minha gestão nessa tal Fundação, só Jesus. O Brasil é de Jesus. Somos uma pátria historicamente cristã na qual nunca existiu escravidão, racismo, opressão de mulherzinhas, injustiça ou mesmo pobreza. Existe, sim, pobreza de espírito, ausência de Deus. Este blá-blá-blá de condições materiais, saneamento, saúde, educação, direitos humanos é bem coisa de esquerdopata. E eu sei quem começou com tudo isso: Os Bitels, um grupelho de rock britânico ou de Liverpool, não sei bem, que veio para implantar o comunismo. Não é por acaso que Os Bitels era formado por quatro cabeludos maconheiros, igual que o número de inventores do comunismo: Marx, Engels, Lenin, Trótski e Lula. Tem uma música deles que se chama Campos de morango. Você já ouviu? Parecem drogados. O morango é vermelho, daí eu concluo que usam o moranguinho para convencer o povo ignorante de que o vermelho tem que estar em todos os campos, ou seja, o comunismo. E vejam os dois primeiros versos que minha secretária traduziu para mim: Me deixe te levar comigo, porque eu estou indo para os campos de morango. Quem gosta dos Bitels quer transformar o Brasil numa Cuba. Vou sugerir à ministra da Agricultura que acabe com as plantações de morango e pedir ao ministro da Justiça que coloque atrás das grades os que cultivam essa praga. Tem outra canção dos diabinhos chamada I want to hold your hand. Quando minha secretária me mostrou a tradução, fiz o sinal da cruz, meu Deus: Eu quero segurar a tua mão. Isso me lembrou da campanha dos comunistinhas, ninguém solta a mão de ninguém, logo depois que o meu grande mito foi eleito combatendo as ideologias, empunhando um fuzil imaginário e ameaçando disparar em todos os vermelhinhos. Viu, como tenho razão! É muito claro que eles cantam para satanás em Come togheter, que minha secretária traduziu como Venha junto, tipo venha junto para o inferno. O inferno de Dante, um livro que eu não li, mas que deveria ser queimado. Esse tipo de música leva a juventude ao sexo e ao aborto. É preciso canções que levem às orações e a Deus. Sem ideologia. Em nossa pátria amada Brasil, a gente tem que aguentar o Caetano Veloso, cujas iniciais, CV, na minha ideia, querem dizer: comunismo vencerá. E aquela banda gay, a Legião Urbana? O próprio nome já diz a que vieram. Pois CV e LG, com aquelas letras horrorosas, disseminam o analfabetismo. Fica mais fácil de dominar o povinho. E aquele outro, chamado Chico Buarque? É certo: comunismo bolchevique. E aquela atriz velha e ruim, como é mesmo o nome? Ah, Fernanda Montenegro: frente do mal. Esse pessoal usa de subterfúgios para passar a mensagem pagã. Daí vem os bailes funk, que deveriam ser proibidos, embora eu ache a Anitta gostosa. Aí a polícia vai lá pra fazer uma limpeza, já com raiva daqueles moleques pretos e pobres rebolando as bundas para satã e senta o cacete. Às vezes, um ou outro morre, mas faz parte. Como meu mito diz: se for preciso, que morram inocentes. Sempre foi assim. Pensando bem, somente baile de debutantes deveria ser permitido. Para combater as forças do mal, eu e a família do governo mentimos, bolamos e multiplicamos notícias falsas, acusamos sem provas, prendemos ilegalmente... Tudo por Jesus, contra as ideologias e contra as cotas para deficientes! Que se explodam! Strawberry fields, nunquinha, porque parece coisa de loucos!


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