Análise

Negativo

Deram de bandeja o pouco que tomamos para nós com muito grito, muito argumento, muito companheiro sumido e muita aposta em um projeto de sociedade baseado na equidade e no trabalhador organizado, dizendo a sua palavra, brigando para ser livre

24 de Junho de 2013 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Andréia Alves Pires

Dois mil e primeiros dias

Seria bem poético se os nossos heróis tivessem morrido de overdose, como anunciava o rapazinho aquele dos cachos, o Cazuza, logo depois dos tempos negros, mas a verdade é que os que não foram mortos nos porões da história crua se deixaram matar em troca da nossa fé. Deram de bandeja o pouco que tomamos para nós com muito grito, muito argumento, muito companheiro sumido e muita aposta em um projeto de sociedade baseado na equidade e no trabalhador organizado, dizendo a sua palavra, brigando para ser livre.

- Mas o senhor acompanhou aquele movimento que impulsionou a democratização. Somos livres e o país está crescendo, não?

Os heróis que a gente tinha e que sobraram, hoje andam engravatados, de cabelos lambidos com gel ou de carecas lustrosas, vestem ternos de cores intensas e valem-se de maquiagem caprichada para destacar e suavizar os gestos na televisão, diante da opinião pública. Esses que estão aí em praticamente nada nos representam. A gente meio que perdeu a esperança, sabe?

- Não sei, não entendo. A mãe sempre diz que as coisas estão bem melhores do que na época dela, que agora há opções e mais conforto e que deus-me-livre voltar ao tempo em que os preços no supermercado mudavam um monte de vezes por dia e o salário quase não dava para garantir a comida do mês. Eu pensei que a gente estivesse andando para frente, evoluindo.

Estamos andando. Em círculos, que nem cachorro atrás do próprio rabo. Permitindo que levem o nosso tempo e nos deixando levar pela coleira para onde esses porcos bem entendem. Fazem de nós gato e sapato e ainda vendem para os gringos a imagem de que estamos muito bem, obrigado, somos um país rico e decente. A mim não me enganam. Iludidos. Que falta faz o Brizola.

- Que porcos? Quem é Brizola, vô Zeca?

Ah, Vico, como é que tu não sabes quem foi o Brizola? O que é que te ensinam na escola, hein?! Taí um exemplo disso tudo que eu te disse. Se esse fosse um país sério, não negava sua história, não esquecia seus personagens colocando gente sem gabarito no lugar. Ou tu achas certo que no rádio, na TV e no jornal se gaste tanto espaço com uma garotada de pouca roupa dançando esse tal do funk, mostrando as polpas a torto e a direito?

Nada contra a garotada, pelo contrário: eu apostei todas as minhas fichas no pessoal que veio depois de mim. Eu acreditava que seriam eles a fazer, de fato, a revolução nessa republiqueta. Nós, os da minha turma, entregamos a faca e o queijo nas mãos dos nossos filhos e eles não souberam fazer o sanduíche. Cresceram reclamando e exigindo a mortadela, a maionese e o escambau. Deu no que deu. A tua turma tem fome e nem sabe de quê.


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