Editorial

Necessariamente óbvio

07 de Abril de 2021 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Foi sem alarde, em cerimônia fechada, que ontem seis novos ministros do governo Bolsonaro tomaram posse em Brasília. Dentre eles, pelo menos um carrega aparente mudança radical de ares na condução de sua pasta: Carlos Alberto França, responsável pelo Ministério das Relações Exteriores. Mudança que, se confirmada, soa como uma rara boa notícia para o país vinda do Palácio do Planalto nos últimos tempos.

França assume o comando do Itamaraty após a inevitável - porém extremamente demorada e desgastante - demissão do ex-chanceler Ernesto Araújo. Amparado em teorias conspiratórias e sustentando um comportamento absolutamente incompatível com o cargo que ocupava, Araújo deixou como legado à diplomacia brasileira o derretimento de uma longa trajetória de respeito internacional. Colaborou enormemente para tornar o Brasil um pária e, a considerar avaliações de especialistas em relações internacionais, embaraçou o corpo diplomático do país.

Felizmente, França assumiu ontem com outra postura. Em seu primeiro discurso, estabeleceu como prioridade três pontos: enfrentamento à pandemia, retomada econômica e atenção ao meio ambiente. Obviedades que poderiam sair da boca de tantas outras pessoas, não necessariamente de um chanceler recém empossado. Porém, frente àquilo que se teve até então no Itamaraty, traz esperanças. Afinal, não fosse pela gestão desastrosa do governo nestas três áreas, turbinada pela incompetência de Araújo, possivelmente o cenário seria diferente. Estaríamos sem crise sanitária, econômica e ambiental? Não. Contudo, conforme analistas, ao menos teríamos melhor trânsito com parceiros estratégicos como China e União Europeia, solenemente ignorados ou atacados pelo nosso ex-chanceler.

Agora, França se compromete a fazer o que se espera de qualquer agente público que ocupe um posto de tamanha importância. Pretende mobilizar missões diplomáticas do Brasil pelo mundo em busca de mais insumos e vacinas contra a Covid-19, dialogar com governos e laboratórios, aderir a cooperações entre países e atuar "sem preferência desta ou daquela natureza" quando o assunto for as relações internacionais. Mais óbvio que isso, impossível. Mais necessário que isso, também impossível.

O novo ministro das Relações Exteriores pode vir a decepcionar. Nunca se sabe. Até porque, embora tenha citado meio ambiente como prioridade, também fez questão de dizer que o país "está no caminho certo" em suas ações nesta área, mesmo que a política ambiental brasileira seja duramente criticada mundo afora e esteja sendo usada como argumento para afastar investimentos. Contudo, França inicia deixando para trás o perfil lunático de Araújo. Neste momento de turbulência, ao menos no discurso, foi aquilo que tantas vezes faz falta: a obviedade necessária.


Comentários

Diário Popular - Todos os direitos reservados