Artigo

Não é tempo de dividir

13 de Julho de 2020 - 08h08 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por Ezequiel Megiato - coordenador do Escritório de Desenvolvimento Regional - EDR/UCPel

É normal que os nervos estejam a flor da pele, afinal, esse ano tem sido desafiador. Para além da palavra “desafiador”, muitos têm experimentado prejuízos incontáveis, seja com a perda da própria vida ou de algum ente querido - perdas irreversíveis o que jamais deve ou pode ser medido ou quantificado, pois está fora dessa esfera - econômicas e de outras ordens.

Em outra oportunidade, falei aqui sobre a oposição, falsa na minha opinião, entre economia e saúde, ou, entre lucro e saúde. É verdade que, por qualquer razão, assistimos nesse período difícil, por várias vezes, inúmeras falas que forçaram a existência de tal oposição, talvez, reflexo da divisão política que perdura no país já há algum tempo. Contudo, reafirmo novamente, não vejo assim. E coloco meu pensamento aqui de forma simples, direta e objetiva: assim como não há maximização de lucro em uma sociedade desigual, não há maximização de lucro em uma sociedade subdesenvolvida, não há maximização de lucro em uma sociedade doente ou que perde sua força de trabalho para a doença e para a morte.

Na economia, uma das passagens mais interessantes do curso, especialmente na microeconomia, em teoria dos jogos, quando falamos de equilíbrio e equilíbrio de Nash, uma matéria bem complexa pra quem não é da área, fazemos referência ao chamado “dilema do prisioneiro”, vou resumir. O dilema do prisioneiro é uma anedota que ilustra o fato de existir dois prisioneiros, amigos, que de fato cometeram um crime, sem provas. Eles ficam em celas isoladas e serão ouvidos pela polícia. Diante deles se impõe três cenários/dilemas: se os dois confessam, ambos adquirem dois anos de prisão; se nenhum deles confessar, ficarão três anos presos; se um confessar (delatar), mas o outro não, o delator fica livre e o outro ficará preso durante cinco anos. Alguém vai comentar o óbvio que a última opção será melhor para um deles. Respondo que sim. Mas não será bom para todos. Não haverá equilíbrio, logo, é ruim para todos. Em outras palavras, não há maximização de lucro para toda a sociedade, sendo a melhor forma a cooperação.

Bem, o ponto acima é ilustrativo do momento que estamos vivendo. Não somos prisioneiros de nada, é fato. Não devemos ser prisioneiros de nada, nem de ideias, uma vez que sempre é possível evoluir. Não é hora de nós contra eles, de saúde contra economia, de setor público contra setor privado, ou vice versa. Não, não estamos vivendo um jogo ou uma anedota. Na realidade que vivemos, morrem pessoas pelo vírus, outros pelo suicídio, outros morrem e morrerão em função de doenças sem tratamento neste período, ao passo de que tantos outros terão prejuízos econômicos enormes e pessoais, de saúde, cognitivos enfim, todo mundo está perdendo, alguns muito, outros um pouco menos.

Não há uma saída única, um passe de mágica que nos devolverá ao mundo pré-pandemia. O caminho que vamos trilhar à frente, precisa ser caminhado junto, em diálogo, parceria e cooperação. Do contrário, estamos perdidos.

 


Comentários

Diário Popular - Todos os direitos reservados