Artigo

Na dança das bandeiras

13 de Julho de 2020 - 08h11 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por Paula Mascarenhas - prefeita de Pelotas 

A tomada de decisão é sempre um momento singular na vida de qualquer pessoa. Um segundo antes de decidir, chegamos, como dizia Sartre, ao exercício pleno da liberdade, diante de todas as possibilidades que se apresentam. Um instante depois, essa liberdade se esvai, e restamos escravos de nossas escolhas.

A gestão pública é feita de situações assim. Todos os dias temos de tomar decisões que, normalmente, impactam na vida de milhares de pessoas. Nunca, no entanto, assistiu-se a algo tão extremo como o que temos vivido nesses dias de pandemia. A sociedade aguarda, em ansiedade, cada decisão, cada passo do gestor. E imediatamente ao anúncio, as redes sociais são tomadas por discussões sem fim, batalhas verbais de verdadeiras torcidas, que parecem deter a chave da iluminação e da verdade.

Tenho vivido tempos difíceis. Sei que a exclusividade não é minha, mas ao definir internamente a priori um padrão de comportamento nesse processo doloroso ao qual estamos submetidos todos, tornei-me escrava dessa decisão, e é apenas nela todavia que encontro alívio. Sei que, para alguns, meu comportamento pode parecer errático. Minhas decisões nos dois últimos sábados aparentemente denotam isso: primeiro decidi não recorrer da bandeira vermelha; depois, quando todos esperavam que eu mantivesse a posição, decidi recorrer. As hipóteses para explicar essa conduta pululam nas redes: ora eu sou inimiga dos empresários, e quero culpa-los pela pandemia; ora sou refém de sua pressão, não tenho coragem de me opor a suas teses em ano de eleição.

Confesso que entro pouco nas redes sociais, para poupar-me emoções que não vão me ajudar a manter o padrão de comportamento que me impus: manter a racionalidade e o bom senso, buscar o equilíbrio em todos os momentos. Ainda assim, chegam-me por vezes as ferozes e sedizentes sábias manifestações. Procuro não me abater com elas. Seguirei sempre na busca de argumentos que me convençam e que valham toda exposição e todo desgaste.

No caso de minha última decisão, foi isso o que ocorreu: ao saber que com duas semanas consecutivas em bandeira vermelha entraríamos automaticamente na terceira, decidi recorrer. Não tanto para alcançar a bandeira laranja agora, pois penso que seria precipitado, mas para ter o direito de reavaliar no fim desta semana e decidir mais uma vez. Escolher a minúcia de argumentos sempre é mais difícil: as facilidades estão, para quem não quer se expor, em seguir o rebanho e fazer o que a maioria espera que façamos. Temos pesquisas de opinião sobre o assunto, sabemos o que pensa a opinião pública. Não seria difícil agradá-la em todos os momentos. Penso que este não é o meu papel, quando estamos enfrentando talvez o período mais difícil da história recente da humanidade. Esperem de mim, sempre, compromisso com o princípio da precaução, seja na questão da preservação de vidas, seja na questão da preservação das atividades econômicas e dos empregos.

É provável que no presente eu acabe não agradando a ninguém, mas isso já não importa: o tempo será, como sempre, o senhor de todas as coisas e confio que ele revelará, apesar ou mesmo por causa de meus erros e de meus acertos, minha disposição permanente de fazer as melhores escolhas para Pelotas e sua gente.


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