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Música e literatura

03 de Agosto de 2020 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Eduardo Ritter, professor do Centro de Letras e Comunicação da UFPel

Sou um leigo quando o assunto é música. Na verdade, não passo de um mero ouvinte que não sabe o nome dos integrantes das bandas, que confunde samba e pagode, que não distingue guitarra de baixo. Para piorar, agora dei de ouvir música clássica enquanto bebo vinho, leio um bom livro ou escrevo textos como esse. No entanto, se colocarem um clássico universal diante de mim, não sei dizer se é Vivaldi, Bach ou Beethoven (confesso que tenho um desejo secreto de ler a biografia desses caras). Gosto da musicalidade. Sempre gostei. Admiro muito quem toca qualquer instrumento ou tem boa voz para cantar, bem como quem sabe dançar os mais diversos ritmos. Invejo meus colegas de Centro de Letras e Comunicação, os professores Fábio Cruz e Cadré Dominguez, tanto pelos seus conhecimentos sobre história do rock e da música em geral, quanto pelas suas habilidades instrumentais com bateria, violão, gaita, pandeiro e tudo o mais. Eu mal e porcamente sei bater palmas e assobiar... Mas gosto de música. Amo música. Não vivo sem.

E algumas letras são absolutamente geniais pelo seu caráter literário, afinal, poesia e música sempre andaram de mãos dadas. Vinícius de Moraes e Tom Jobim são um belíssimo exemplo disso. As letras dessa dupla fazem qualquer coração derreter. E o que dizer de Renato Russo e da Legião Urbana? Cada letra, uma obra literária. Na minha adolescência, cada vez que ouvia Eduardo e Mônica, visualizava toda a história passando diante dos meus olhos. E, quando estava apaixonado (o que acontecia praticamente o tempo inteiro, mas por musas diferentes) eu substituía a Mônica pelo meu amor platônico do momento. Nada mais puro e belo do que uma paixão imaginária quando se tem seus 12, 13 ou 14 anos. Faroeste Caboclo me fazia sentir um rebelde cantando palavrões. E Dezesseis me fazia ir às lágrimas, pois lembrava de um grande amigo morto em um acidente de maneira semelhante a do João Roberto. Além disso, ele era o maioral e quando pegava o violão também conquistava as meninas e quem mais quisesse ver...

Também fui apaixonado pelos pagodes de Zeca Pagodinho e Martinho da Vila. Lembro que deitava no sofá da sala e cantava essas músicas para as mais belas garotas do colégio, imaginando que elas estavam ali, suspirando na minha frente. Inclusive, na minha formatura de graduação eu escolhi Casa de Bamba para tocar na hora de receber o diploma, pois a letra representava exatamente como era a minha casa com meus pais, meu irmão mais velho e irmã mais nova. "Na minha casa ninguém liga pra intriga, todo mundo xinga, todo mundo briga...". E os Mamonas?? Quando lançaram o CD deles, levei uma mijada de uma professora que me flagrou copiando as letras das músicas no caderno, pegando o CD emprestado de um colega... Ao ler aquelas "barbaridades" ela recolheu o caderno para entregar aos meus pais, mas desistiu da empreitada quando se deu conta de que os Mamonas eram uma febre incontrolável graças às letras criativas e geniais que uniam humor, palavrões e deboche. Totalmente Geração Coca-Cola.

Mas a minha banda de infância-adolescência favorita foi Engenheiros do Hawaii. Cada fita ou LP que ganhava, eu ouvia o dia inteiro. Meus pais diziam que não aguentavam mais. Até hoje lembro todas as letras dos primeiros discos de cor. E a Daniela Mercury? Foi meu primeiro amor platônico artístico. Isso só no cenário nacional, sendo que nem mencionei Cazuza, Titãs, Paralamas, Ira!, Skank (Formato Mínimo, a música perfeita!), Zeca Baleiro, Charlie Brown Jr., Fernanda Abreu (outro amor platônico) e tantos outros. Já para falar sobre artistas estrangeiros vou esperar passar a pandemia e convocar Fábio Cruz e Cadré para compartilharem os seus conhecimentos com os ouvintes do Café Literário, na Federal FM. Aguardem! Até lá, vou rodando violino, guitarra, bateria, pandeiro, violão e tudo o mais, aleatoriamente, enquanto tomo meu vinho e leio meus amigos escritores.

Por fim, dedico essa coluna ao jornalista Rodrigo Rodrigues (Globo/Sportv), que unia magistralmente três das minhas paixões: futebol, música e literatura. Na minha opinião, perdemos para o Covid-19 (e para o fato do país estar à deriva em meio à uma gravíssima pandemia) o melhor apresentador do jornalismo esportivo do século XXI.


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