Editorial

Morde e assopra

26 de Janeiro de 2022 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

No último final de semana o ministro da Saúde fez uma viagem ao Amazonas, um dos estados que mais sofreu - e ainda sofre - com os efeitos catastróficos da pandemia e que tem uma das menores taxas de população com ciclo vacinal completo. São apenas 55,4% com duas doses, enquanto o Rio Grande do Sul, por exemplo, tem 72,2% e São Paulo 79,7%. Na capital do estado da região Norte, Manaus, Marcelo Queiroga disse o seguinte: "Solicito a colaboração de cada um para que leve aqueles que vocês conhecem para tomar a segunda dose da vacina. E aqueles que não tomaram dose de reforço, que procurem receber essa dose. Só assim vamos ser efetivos e evitar formas graves de doença, que podem levar à morte dos nossos irmãos. (…) São vacinas que a sua segurança já foi atestada pelas principais agências reguladoras do mundo".

A declaração da principal autoridade em saúde pública do país parece lúcida vista isoladamente, neste contexto. Tudo o que se espera de um ministro dessa área em meio a uma crise sanitária como a atual é exatamente isso, que estimule a população a se proteger com o método mais eficiente, seguro e cientificamente comprovado, que é a vacina. Contudo, enquanto Queiroga dizia isso em público aos manauaras, o ministério comandado por ele publicava documento oficial em que apontava, com todas as letras, que as vacinas contra Covid-19 não são efetivas e seguras e que são de alto custo. Para completar, a nota técnica insinua um jogo de interesses sobre os imunizantes, ressaltando terem sido financiados pela indústria e recomendados pelos médicos. Em contraposição a isso, sinaliza a hidroxicloroquina (substância exaustivamente comprovada como ineficiente contra o coronavírus) como efetiva, segura e de baixo custo.

A publicação oficial do Ministério da Saúde, por óbvio, foi rápida e duramente repudiada por médicos e pesquisadores sérios, considerada um absurdo sem qualquer base científica. Porém, ao ministro e ao séquito que encampa batalhas ideológicas patrocinadas pelo governo, o descabimento da nota técnica ou a reprimenda vinda de quem de fato se preocupa com o enfrentamento à pandemia pouco importa. O recado à base de seguidores fanáticos está dado e a confusão entre os desinformados, igualmente.

Declarações como a de Queiroga em Manaus, no fim das contas, são a segunda parte de uma espécie de política de morde e assopra que aposta no permanente tensionamento. O que, especialmente em uma situação de saúde coletiva, é mais do que uma irresponsabilidade. Mas que, dentre tantos disparates aos quais população e instituições parecem habituados, acaba ficando impune.


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