Artigo

Mistérios, crimes e livros

09 de Novembro de 2019 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Eduardo Ritter, professor do Centro de Letras e Comunicação da UFPel, coordenador do projeto de extensão Café Literário - rittergaucho@gmail.com

Hunter S. Thompson, criador do Jornalismo Gonzo, já dizia: a realidade às vezes é mais imprevisível e surpreendente do que qualquer ficção. Está certo, há ficcionistas mestres na arte de escrever mistérios e suspenses. Eu, particularmente, gosto dos mestres Raymond Chandler e Agatha Christie, mesmo com o gênero não sendo o meu preferido. No Brasil, Jô Soares, muito mais conhecido pela sua atuação na TV, tem dois romances de suspense geniais: Xangô de Baker Street e O homem que matou Getúlio Vargas. Também li os outros livros dele, mas considero que o humorista e escritor não conseguiu repetir a inventividade surpreendente dos dois primeiros. Nelson Rodrigues, Rubem Fonseca e David Coimbra também escreveram boas narrativas que te prendem pelo tom misterioso. Mas e quando o assunto é não ficção?

Há inúmeros casos de livros-reportagem que trabalham com isso: A sangue frio, de Truman Capote, e Voyer, de Gay Talese, são dois belos exemplos. Aqui, no Rio Grande do Sul, o jornalista, pesquisador, escritor e mestre em Comunicação Social, Fábio Rausch, publicou o livro O jornalismo sensacionalista na imprensa gaúcha (UCS, 2015). Trata-se de um trabalho acadêmico que aponta a cobertura dos veículos de comunicação sobre três casos emblemáticos e com aspectos insolúveis que aconteceram no Rio Grande do Sul em três períodos históricos diferentes. O primeiro caso começa em 1962, quando Margit Kliemann, esposa do deputado estadual Euclydes Kliemann, do PSD, foi encontrada morta no bairro Moinhos de Vento, em Porto Alegre. Segundo a polícia, a morte foi causada por pancadas na cabeça por meio de um atiçador de lareira. O principal suspeito passou a ser, então, o marido da vítima. No ano seguinte, no entanto, Kliemann iria participar de uma entrevista na Rádio Santa Cruz. Quando o vereador do PTB local Floriano Peixoto Karam Menezes disse no microfone que Kliemann era o principal suspeito da morte da esposa, este se levantou e, conforme Rausch, teria dito: "Essa não!". Karam, então, sacou uma arma e assassinou Kliemann. O ato foi transmitido ao vivo para os ouvintes da Rádio Santa Cruz. No entanto, o assassinato da esposa do deputado nunca foi esclarecido, pois apareceram outros suspeitos, como um sobrinho da vítima que era dependente químico.

O segundo caso recuperado por Rausch ocorreu em 1988, quando o deputado José Antônio Daudt, do PMDB, foi assassinato no momento em que chegava em casa, também no bairro Moinhos de Vento, em Porto Alegre. Ele foi alvejado no peito. Até hoje o caso não foi solucionado. Por fim, o terceiro crime que aparece na obra de Rausch é a morte do então secretário de Saúde de Porto Alegre, Eliseu Santos, assassinado em 2010, no bairro Floresta, na capital gaúcha. Mesmo com o apontamento de réus, não há uma certeza sobre quem matou o ex-secretário.

A obra de Fábio Rausch mostra que histórias de crime e mistério, infelizmente, são bem mais corriqueiras na vida real do que na ficção. Se cada crime sem solução virasse livro-reportagem ou romance, o Brasil bateria todos os recordes de publicação de obras do gênero. A mais recente e polêmica é o assassinato da vereadora carioca Marielle Franco. Muito mais do que política, Marielle era mulher, era negra, era homossexual e lutava por causas que envolvem milhões de pessoas. Os tiros em Marielle atingiram muito mais do que seu corpo: atingiram toda uma sociedade formada por mulheres, negros e homossexuais que estão cansados de serem massacrados por racistas, homofóbicos e machistas. E, para dar um tom ainda maior de suspense dramático e espetacular, há a inclusão e a suspeita de envolvimento do presidente da República, Jair Bolsonaro, e de seus familiares e amigos no crime. Há muitas coincidências e interrogações não explicadas, provas adulteradas, fotos comprometedoras, bicos calados. É um suspense histórico se desenvolvendo diante de nossos olhos. O desfecho? Creio que - infelizmente - não haverá para nós, mortais. Parece ser, mais uma vez, um caso insolúvel. Um caso que vai habitar por muitos e muitos anos o imaginário dos brasileiros, que vai render filmes, livros e séries, com versões distintas e antagônicas.

Esse e outros temas serão abordados no programa Café literário, que vai ao ar na Federal FM neste sábado, às 15h, com a participação de Fábio Rausch, além dos estudantes de Jornalismo Paulo Ienczak e Vernihu Oswaldo Pereira Neto. Na literatura de ficção e não ficção há muitos mistérios a serem debatidos, mesmo sem serem resolvidos. Afinal, da discussão nasce a luz.


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