Artigo

Milton Barum, 1932-2019, um Mestre

11 de Novembro de 2019 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Paulo Rosa e Luis Rubira
prosasousa@gmail.com
luiseduardorubira@gmail.com

As nove décadas de Seo Barum sobre esta terra não foram em vão. Poucos, como ele, terão alcançado tal nível de coerência entre o sentir, o pensar e o agir. Esse deve ser um dos fatores do proverbial encantamento que produzia em todos nós. Tal sintonia interior dava-lhe suporte para compartilhar uma incomum disponibilidade de escuta, o que o tornou um ser privilegiado. Trazia, de coração, um ouvido e uma palavra.

Cultivou, por vida, os ensinamentos do professor Rivail, mas transcendeu o saber kardecista, porque trazia nele, desde sempre, a capacidade maior de compaixão, a essência espiritualista. Kardec foi útil para afinar-lhe os instrumentos, mas Barum parece ter nascido Barum.

Pensar no Seo Milton nos fez lembrar o poeta e filósofo norte-americano Henry David Thoreau, um rebelde com causa, que soube dizer: "Fui à floresta viver deliberadamente, para sugar tudo que é vida e recusar tudo que não o seja, para que não, ao morrer, descobrir que não vivi". Thoreau (1817-1862) e Barum souberam viver.

O Velho Espiritualista, além do mais, deixou-nos um livro, Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará, de 2019, onde conta, como ele sabia contar, a origem modesta da família numerosa e seu encantamento precoce com a vida e o viver. Não por acaso o capítulo de abertura do livro se intitula Dúvidas, dúvidas e, justamente, esta bendita capacidade de duvidar foi que o fizeram enveredar pelas leituras, que foram se aprofundando sempre, com passar do tempo. Desde menino frequentador da nossa Bibliotheca Pública, ali ele procurou, nos grandes autores, respostas para seu duvidar existencial. Mobilizou-se, diz, por Albert Camus, por Freud, mas seu encantamento foi pleno ao tomar contato com as filosofias, sobretudo as orientais..."de todas as filosofias estudadas a que mais me impressionou, foi sem dúvida o Budismo de Sidarta Gautama, o Buda...comecei a compreender o sentido da vida como um eterno vir a ser, sem solução de continuidade, compreendendo a chamada morte apenas como um ato de transformação que nos separa do corpo físico..." (página 24). "...sem medo de castigo, com clareza, submetendo-os ao crivo da razão e do bom senso, resolvi ler a Bíblia" (página 26). Barum fez leituras críticas, com releituras e anotações, de variadas Bíblias, incluindo a greco-ortodoxa, tecendo considerações inclusive sobre a qualidade das traduções, tema tão relevante neste século 21. Em consistente relação com sua própria consciência, soube dizer, página 30: "A Bíblia está repleta de ensinamentos importantes e profundos, mas não é imune a erros". Este destemor de pensamento, essa possibilidade de pensar livremente, essa capacidade pessoal são que o tornaram memorável interlocutor para gente das mais diversas formações e ideologias. Tinha e sabia mostrar seu dom de acolher, e assim fazia com sua própria pessoa.

Conheceu dona Ligia num baile, e com ela dança até hoje. Mestre Barum.


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