Opinião

Milongas no salão

29 de Fevereiro de 2020 - 09h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por Paulo Gaiger
Professor do Centro de Artes da UFPel

Não lembro exatamente do ano em que ocorreu o acontecido. Coisas do tempo que vai enferrujando os ossos e o tutano. Só sei que a festa ficou marcada em minha recordação e na história da colônia. A vida tem tudo para ser bonita, mas às vezes me parece que está do avesso. Vê se não tenho razão? Quando chega o tempo da jubilação, o vivente já nem tem mais preparo para aproveitar os dias e as noites. O esqueleto dói, as carnes ficam frouxas, os ouvidos meio surdos, as lembranças se esfumaçam, os olhos precisam de lentes cada vez mais graúdas, daquelas que lembram o fundo da garrafa de canha do bolicho dos compadres Marina e Mauro, o nariz e as orelhas se enchem de pelos e crescem medonhamente, os cabelos se vão a cada ducha, próteses e mais próteses tomam o lugar dos dentes e os pelegos só servem para dormir.

Os velhos como eu, sim, têm o conhecimento para passar para os mais jovens, para os mandinhos, mas de que adianta? Vejo meus filhos e meus netos correndo e forcejando no trabalho como se o vasto mundo fosse acabar amanhã. Atrás do dinheiro para comprar coisas que nem precisam, mas é que ficam exibidos em mostrar para os outros. E aí os outros de miolo mole também saem a comprar e criam uma coisa doida, difícil de entender. O compadre Rubira, que tem uma televisão moderna e colorida, falando do tal de Sócrates, comparou a doidice a ficar enchendo de água um tonel cheio de furos. A mocidade perde a vida por vaidade e bobagens.

Um velho também devaneia, como eu. Ia contar uma coisa e tomei outro sendero. Pois então, eu já me aprontava para deitar, quando um moleque veio a minha casa trazendo um recado urgente do compadre Luis, presidente do clube da colônia. Era a noite do baile de Carnaval, o salão tava cheio e o conjunto que foi contratado não tinha aparecido. O presidente estava aflito. Sabedor de que eu dedilhava alguma coisa no violão, mandou o moleque me chamar a fim de que eu fosse distrair o povaréu louco para pular e brincar. Não sou de negaciar pedido de amigo. Peguei o violão e pedi ao moleque que fosse chamar Dom Leandro, o Thiaguinho da mercearia e o seu Zé, o das ovelhas. Todos sabiam tocar algum instrumento e não me deixariam na mão, nem o compadre Luis, nem o povo louco por uma festa de Carnaval. Ao chegarmos ao salão do clube nos colocamos no pequeno estrado que até microfone tinha. Vamos tocar o quê?, perguntei aos compadres do conjunto improvisado. Nos olhamos e decidimos: o que a gente sabe melhor. E puxei uma milonga daquelas de arrepiar os esteios e os corações. Senti um estranhamento naquela imensidão de gente que tinha vindo para bailar outro tipo de música, talvez samba e marchinha, ritmos dos quais a gente não tinha muita sabedoria. Seguimos milongueando e, compasso a compasso, a compadralhada no salão começou a mover as carcaças saltitando de alegria. Mas logo notamos que pulavam com lágrimas cobrindo o rosto que se pareciam a quedas d'água de suspiros e nostalgia.

A milonga é pungente, um pampa que se perde de vista, um vento minuano, uma solidão que não finda. O povo pulava de alegria e chorava compulsivamente a cada acorde e canto. Pena que o compadre Vitor, sabedor de todas as milongas, tinha ido de pescaria lá pras bandas de Rosário. Serpentinas e confetes caíam sobre as fantasias da gente que brincava e se desmanchava em lamentos no salão. A cada canção, os casais tomados de faceirice e melancolia, confessavam coisas inconfessáveis, se abraçavam e se beijavam como se não houvesse amanhã. Uma catarse. Se antes havia quedas d'água, agora eram corredeiras de lágrimas e lamentos misturadas à alegria e ao riso que inundavam o salão. Na madrugada, depois que o baile de Carnaval terminou, a colônia dormiu em paz. Encharcada e feliz. É... a vida é bonita!


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