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Michelangelo: da escultura à poesia

21 de Janeiro de 2021 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Thiago Perdigão, músico e compositor

"Ainda no berço recebi a visita da Beleza, fiel guia de minha vocação e que para as duas artes me é luz e espelho. Pensar de outra forma é mentir. Apenas ela eleva os olhos em direção ao sublime, o qual aqui me preparo para pintar e esculpir". Assim escreveu Michelangelo (1475-1564), também conhecido em sua época por "o divino", em razão de seus amplos talentos artísticos e sua incansável capacidade de realização, os quais resultaram em obras de caráter monumental e valor duradouro.

Descoberto aos quinze anos por Lorenzo de Médici, cuja influente família foi responsável por grande parte do incentivo às artes de sua época e pelo resgate de escritos antigos, como as cópias dos diálogos de Platão, Michelangelo viveu durante vários anos em sua corte em Florença. A atmosfera artística e intelectual aí presente gerou um ambiente de grande aprendizado para o escultor, influenciando-o a tornar-se não só um completo artista plástico, mas igualmente um poeta e um estudioso dos textos filosóficos e literários tanto dos antigos quanto dos italianos de épocas mais próximas, já que entre seus hábitos estava a leitura de Dante, Petrarca e Boccaccio.

Sobre a relação entre pintura e escultura, Michelangelo escreveu: "costumo pensar que a escultura é o farol da pintura, e que entre ambas existe a mesma diferença que há entre o sol e a lua. Contudo, também considero ambas em essência a mesma coisa, na medida em que ambas procedem da mesma faculdade, e daí que é fácil estabelecer entre elas a harmonia e encerrar as disputas, que gastam mais de nosso tempo do que produzir as figuras em si". E se em sua época existiam disputas conceituais entre a pintura e a escultura, haviam disputas também a respeito dos meios e fins da beleza na obra artística. Nesse aspecto, Michelangelo criou uma posição estética independente, abandonando a crença de muitos dos seus contemporâneos de que a beleza seria produzida por uma proporção matemática determinada entre as partes do todo, e preferiu ter como guia os sentidos corporais. A ideia de leis estéticas apriorísticas não lhe era atraente, e considerava possíveis muitos outros tipos de proporções numéricas na arte: por conseguinte, vários tipos distintos de beleza a serem reconhecidos pelos sentidos, os quais teriam, por fim, a proeminência durante a apreciação. Além disso, foi um dos pioneiros da autonomia criativa do artista, na medida em que procurou trazer à arte sua visão pessoal, decretando através de sua capacidade o modo como a obra deveria ser projetada e realizada, alcançando maior liberdade e superando a subserviência do artista-artesão de épocas passadas, que cumpria de um modo mais rígido a vontade de seus patronos.

Já em relação à sua poesia, transpira nela a influência dos filósofos neoplatônicos, da filosofia escolástica, dos poetas clássicos e escritores italianos. Nela abundam observações de Michelangelo sobre as próprias ideias artísticas e eventos de sua vida, ajudando-nos a conhecê-lo ainda mais de perto. Por exemplo, contra o excesso de trabalho de sua vida pregressa, certa vez, escreveu com tom cáustico em um soneto: "Sou um desgraçado! Desgraçado! Em todo o meu passado não encontro/Sequer um dia que tenha sido meu!/Ah! Faça, faça com que eu não volte a ser o que era!".

Cerca de trezentos poemas e fragmentos poéticos do escultor chegaram a nós e, pelo seu grau de qualidade, lhe garantiram fama póstuma também como poeta, a ponto do compositor russo Dmitri Shostakovich compor, em 1974, a "Suíte sobre os versos de Michelangelo Buonarroti", um ciclo de onze poemas musicados para voz e orquestra. De fato, a respeito de sua póstuma fama, parece que os seus próprios versos se cumpriram: "A singular Fênix não renasce/Se não tiver queimado; e no fogo, se eu morrer,/Renascer espero mais claro entre/Os que a morte engradece e o tempo não ofende".


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