Artigo

Meu tipo inesquecível

21 de Novembro de 2020 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Maria da Graça Fernandes Ferreira

Griô Sirley Amaro - "meu tipo inesquecível". Pobre, negra, pouca instrução formal, mas que soube fazer dos limões que a vida lhe deu, uma bela limonada.

Sirley, uma grande dama, de fino trato, no falar correto, nas atitudes e principalmente na delicadeza de sentimentos. Preocupadas em jamais ferir alguém - essa era a Griô - alma nobre e coração puro.

Me sinto no dever de explicar o porquê de Griô. Os Griôs eram anciões, nos tribos africanos, responsáveis pela transmissão da cultura oral de seu povo. Com Sirley, parte da cultura popular de Pelotas se perde.

Sua mãe, Ambrozina, veio mocinha para servir de babá num família de posses. Seu pai, João, cozinheiro de festas e banquetes, grande carnavalesco. Nesse meio Sirley cresceu, absorvendo modos finos e amor pela cultura popular. Seu nome foi lhe dado em homenagem à Shirley Temple, atriz mirim de sucesso, em Hollywood à época.

Minha relação com Sirley foi através das Oficinas do Cetres, projeto da UCPel. Tive o privilégio de a ter como aluna na oficina de Contação de Histórias, até este ano. Costumava dizer que me sentia insignificante perto de seu saber e da riqueza de suas histórias. Era nossa aluna Vip, o mural sempre mostrava recortes de sua trajetória.

Carnavalesca por excelência, dava seu toque pessoal em qualquer atividade. Durante alguns Natais, fomos visitar casas geriátricas, levando músicas natalinas. Sirley sugeriu a introdução de marchinhas antigas, tipo "Mamãe eu Quero", "Ei, você aí". Mudou o cenário, virou uma animação só.

Sem a menor sombra de recalque, nos encantava com histórias de sua infância, onde sua mãe cozinhava num fogão de lata de banha, aquecido com brasas. Ou ainda, quando junto com outras crianças, largava barquinhos de papel no Canalete da Argolo.

Sirley foi modista por longos anos, num "Atelier de Alta Costura", como gostava de salientar. Daí, que certa vez fui viajar, pedindo-me ela, se possível, que trouxesse uma revista de modas parisienses, era seu sonho. Falou-me que quando ficasse velha, sem ter o que fazer, folhearia revistas e cartões. A vida não lhe deu esse gosto, foi atuante até morrer, aos 84 anos.

Obrigada minha amiga, por teres passado em minha vida e permanecido nela por dez anos. Enriqueceste meu caminhar.


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