Artigo

Meu lenço cor de rosa

20 de Setembro de 2019 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Paulo Gaiger, professor do Centro de Artes da UFPel

Acordo sempre cedinho, mal o Sol mostra as caras por detrás da coxilha. Dou de comer aos bichos da casa e preparo o amargo. Na varanda, me quedo mirando os matos, os campos, ouvindo o canto dos passarinhos, o murmúrio da brisa e do riacho lá perto do capão. Um engravatadinho da cidade pode até dizer que é sempre a mesma coisa, mas não é. A paisagem a cada manhã é sempre diferente, eu sinto aqui no meu peito e nos meus olhos, até porque a cada dia que nasce, eu percebo que renasço com ele, como se eu não fosse o mesmo do dia anterior.

Meu olho é outro, mais experiente, maduro e flexível como uma árvore que não se quebra em noite longa de tempestade. As manias de piá e de adolescente ficaram lá para trás. Assim tem que ser. Se não, por insensatez ou descuido, podemos colocar um mimadinho desmiolado à frente do CTG. Lhes parece estranho que cedo da manhã eu fique matutando enquanto sorvo o mate e o Bento se coça. Mas é que Dom Rubira, o doutor do postinho, me emprestou uns livros de filosofia, e o Rosinha, lá da sapataria, uns contos do Simões Lopes Neto. Minha cabeça, então, fervilha de ideias como nunca. Dom Mauro e Dona Marina, os compadres da pulperia, quando vou buscar o pão e o jornal, sempre me dizem: "ler faz bem, não só para os olhos, mas também para os miolos e para o coração".

Na segunda-feira dessa semana de feriado, fui pegar o Diário na pulperia e fui surpreendido com uma fotografia na capa que me encheu os olhos d'água, igual ao açude lá de casa. Não tem igual, que coisa mais linda: a fotografia era de um bebê se alimentando no peito da mãe. Nos adentros do jornal, a reportagem sobre uma tese de doutorado premiada, da Universidade Federal de Pelotas, sobre a importância e os benefícios da amamentação para os nenês e, depois, para os anos em que a vida segue. E tem gente ruim querendo acabar com os dias da universidade, cortando verbas, desobedecendo a constituição, difamando professores. E outra gente bem burra que acha isso certo. Dona Marina me contou, então, que sua filha fora molestada porque amamentava sua netinha na praça central da cidade. Mas, bah, comadre, que vergonheira me dá. Não soube mais o que dizer. Pensei: todo o vivente tem uma mãe e, se teve sorte, mamou nos peitos dela. Como é que depois de crescido, enxerga indecência na amamentação, no peito à mostra? Essa gentalha é doente, a indecência está nos miolos dessa gente ruim.

Dom Mauro me disse que algumas igrejas estão por detrás disso, como um vírus do mal que vai sendo inoculado nos fiéis. E a mulher sempre como tentação e pecado. Meu Jesus Cristinho, donde tiram essas asneiras? Se não é para deixar o fiel meio bocó, fácil de encilhar? Ouvi dizer que usam a bíblia e o nome do Patrão Velho para amedrontar e levar à obediência de ordens desumanas. Os fiéis pobres e os donos das igrejas enricados. Ficamos charlando apoquentados com os rumos que fixam paisagens e endurecem olhares e formas de pensar. Lembrei-me da minha filha que está na cidade grande e tem uma rica de uma companheira. Já moram juntas há muitos anos. Adotaram uma menina, a minha netinha, e formam uma bela família. Tenho orgulho delas.

No feriado farroupilha se pode pensar sobre essas coisas, sim. Lá no CTG, que organiza o desfile, a festa e o churrasco, peões e prendas sabem que comemoramos o mito e não a realidade e as verdades históricas. O que os terratenientes daquela época fizeram com os negros, as mulheres e os pobres farrapos, macula nossa trajetória. Vimos que a mistura das cores dos tradicionais lenços vermelhos e brancos dava uma coloração rosada. Assim, desfilamos com nossos lenços cor de rosa e as prendas recém-mães amamentaram seus nenês gauchinhos durante o desfile. Foi um sucesso. Nesta manhã, me senti mais arejado e justo. E que paisagem linda!


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