Artigo

Meu irmão dá o troco

23 de Novembro de 2020 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por Paulo Rosa

Hospital Espírita, Caps Porto, Ambulatório Saúde Mental

prosasousa@gmail.com

Ricardo, meu irmão uruguaio, é bem mais velho do que eu. Em seu entender (quixotesco) a idade dá-lhe direito de fazer-me corrigendas e imprecações, sempre que entende ter eu cruzado a fronteira da civilidade, da harmonia entre os povos. Admoestou-me severamente com seu espanhol castiço, apenas porque, em fraterna carta, escancarei superioridades insofismáveis de nossa língua sobre a língua dele. Seu troco: 'hermano del alma. A ti, irreverente profanador de la lengua de Cervantes, inventor de calumnias lingüisticas, hablador de un dialecto mal hablado del gallego, creador de patrañas sin fin...'. Suspendo aqui para não chocar ainda mais ao sensível leitor. Faço a ressalva de que ele abre a missiva mostrando nossa irmandade d'almas, gesto que considero veraz e propício a entendimentos. Mas, em seguida baixa a lenha, acusando-me de profanador de Cervantes - logo a mim, que cultivo inclusive pequenas obras do mago espanhol, tipo El coloquio de los perros. Além, remata-me como inventor de calúnias linguísticas só porque mostrei-lhe, por exemplo, o sempre divertido vício espanhol de, tomando por base a língua de Camões, eles, assim que podem, transformam palavras nossas com a letra 'o', tipo sorte e morte, em suerte e muerte.

Percebo que é um empenho sobre-humano por criar diferenças, mostrar à força alguma originalidade e incentivar a coesão cultural deles. Prezo o esforço. Mas, por mais que se dediquem, terminam simplesmente copiando-nos. Veja-se o que fazem com a preposição 'e'. Buscam diferença usando o 'y', como em 'yo y el' ou 'eso y aquello', mas fazem plágio deveras ao indicarem usar 'e' quando a palavra que segue se inicia por 'i', p.e.: 'mi hermano es bueno e inteligente'.

Agora, raia o chocante (e risível) no trato com animais domésticos. Nós chamamos o gato mediante suave sibilo, acompanhado de gesto afetuoso de mãos. Os de habla hispânica, pasmemos, emitem um inacreditável 'mishifu-mishifu', ou coisa parecida, acreditando que o felino se aproximará. Nunca vi nenhum responder. Analogamente, damos um corridão no cachorro com um 'já cachorro', enquanto eles emitem um 'zuzo' que, segundo vejo, não afastará membro nenhum da espécie canina.

Tenho que reconhecer que Ricardo foi hábil, quiçá contundente, em dizer que a língua que falo não é mais que um dialeto meia boca do galego, língua gutural e de parcos matizes sonoros. Achei engraçado, mas lamento informar a meu irmão que as sutilezas d'alma se oferecem apenas ao étimo português, mais ainda, ao inigualável sotaque brasileiro. Conheces aí uma tradução razoável para a nossa 'saudade'? Quem sabe, como nós, expressar o fundo da alma de quem ama a quem não está presente? Longing, missing, nem de perto alcançam. Añoranza diz algo, mas perde em sonoridade e nostalgia. Em alemão: fehelt. Sem comentários.

'Saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu', do Chico Buarque. Un regalo al hermano.

 

 


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