Artigo

Memórias recentes de um cronista

26 de Outubro de 2019 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Paulo Gaiger, professor do Centro de Artes da UFPel

Na sexta-feira da próxima semana, dia 1º de novembro, às 19h, lanço o meu livro Não vá ao supermercado nos domingos na Feira do Livro de Pelotas. Não se trata de nenhuma campanha, não. O título foi pinçado e bolado por Mauro Póvoas, amigo querido e professor de literatura da Furg, da crônica Um gigante solto na avenida publicada no dia 5 de maio de 2017. Nela, reflito sobre o que estamos fazendo de nossas vidas, que escolhas temos e construímos. Vida e tempo são a mesma coisa. Quando digo "não tenho tempo", significa, muitas vezes, "não tenho vida".

Mauro é quem fez a seleção das 60 crônicas publicadas no Diário Popular entre 2015 e 2018. Eu acrescentei uma por minha conta. Portanto, se ainda somos bons em matemática, são 61 crônicas para deleite dos leitores. Mais um prefácio maravilhoso do Mauro e belas e carinhosas apresentações de Luis Rubira, Vitor Ramil, Francisco Marshall e Jarbas Tomaschewski, editor do Jornal. Aí, a Gika e o André, da editora Traços & Capturas, lá de Itajaí, abraçaram a publicação.

Isso de escrever semanalmente para o Jornal tem sido uma experiência extraordinária e que pede deste autor muitas leituras e pausas para analisar, medir, refletir, escrever e reescrever. Como diz o filósofo que cuida de jardins floridos, tudo o que é belo necessita esforço. Fico imaginando que o articulista ou jornalista que escreve todos os dias a sua coluna, deve suar quando desbordam assuntos da política, do comportamento, da religião, da educação, das artes, mas lhe faltam palavras e inspiração. Criatividade e cautela são solicitadas. Ainda mais em tempos extremos e tacanhos, de lá e de cá, que parecem exigir que se escreva o que, de antemão, aqueles fixados em alguma das pontas querem ler porque já estão em acordo e é só o que aceitam.

O contraditório, outra perspectiva, uma perturbação das convicções, a desconstrução de certezas, um poema, nem pensar. Apedrejamento de ideias, tempestade de rótulos e carimbos. Já vivi momentos de desespero à frente do computador, não exatamente pensando sobre o que escrever, mas em como escrever, que é a parte mais complexa. Escrever sobre fascismo, sexo, cerceamento, liberdade, literatura, ética, prazer, privação ainda é possível. Mas o como escrever é uma descoberta diária. Como diz o filósofo que ama, existem milhares de canções de amor no mundo, mas cá entre nós, Dolores Duran, Chico Buarque, Caetano, Gonzaguinha e Roberto Carlos falam de amor como ninguém. É claro que tem mais gente que escreve tão bem sobre o verbo amar que nos arrepia. Então, a forma, a escolha das palavras, a beleza na construção das frases vão emprestando dinâmica e cores a uma leitura agradável e, ao mesmo tempo, instigante.

Mas nessa de escolher e trocar palavras e frases, uma vez deixei escapar um H por algum lugar do meu escritório. E meu artigo foi enviado sem o H que deveria estar lá, na frente do A. Só me dei conta na manhã de sábado, com o jornal quentinho nas mãos. Tive vontade de percorrer todos os pontos de venda do DP e corrigir cada impresso com a caneta. Nevermind, que ninguém vai morrer, disse a Fabi obstruindo a porta do apartamento. Ufa! Nesses anos de cronista, criei um personagem meio taura, morador da colônia de Pelotas, que me surpreende a cada vez que aparece. Lá pelas tantas da escrita, ele toma a dianteira e azar o meu. Escrevo o que ele quer. Tem explicação? Boa parte desta experiência gratificante e que realizo com muito prazer se deve ao próprio Diário Popular. É um jornal democrático onde escrevem outros cronistas, como o querido Paulo Rosa, e é aberto às ideias. Além do que, é defensor da liberdade de imprensa. Ao Jarbas, à Débora, à Michele, à Ana Cláudia, ao Leon, ao Max e aos demais jornalistas e fotógrafos do Diário Popular, meus abraços e meu agradecimento carinhoso. O livro também é de vocês!


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