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Manual para candidatos - Volume 1

24 de Outubro de 2020 - 15h02 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Paulo Gaiger, professor do Centro de Artes da UFPel

As eleições para a Câmara de Vereadores e para a Prefeitura estão logo aí. Preocupados com as centenas de candidatos e candidatas, a Startup Be a Winner vem colaborar com a campanha para que tudo dê certo como acreditam que pensam que planejaram. Esse manual conta com algoritmos terceirizados, especializados em fabricar mentiras e confeitos para eleições, sem nenhum vínculo com partidos, candidatas e candidatos. Contudo, é bom alertar, nossos algoritmos sabem tudinho o que vocês fizerem no verão passado e o que irão fazer no próximo.

Enrascada! E quem não? Se Dom Pedro I proclamou a independência montado em uma mula, em seguidinha de uma crise intestinal que empestou as águas do Ipiranga, mas é a tela de Pedro Américo Figueiredo e Melo, pintada em Florença, muitos anos depois, o registro oficial, a imagem em que a pátria acredita, o que diferencia o mito da realidade, a fé da ciência, a mentira da verdade? Nosso manual vai tentar esclarecer tudo isso de maneira leve e divertida. De antemão, prevenimos candidatos e candidatas: fujam da verdade, enterrem-na sob cinzas e fuzis, cubram-na com doces e fantasias, gritem nos palanques virtuais e nas carreatas, mostrem firmeza e determinação, mas jamais a verdade. A mentira é boa-praça e tem vantagens: se propaga à velocidade da luz.

Depois do estrago feito, azar do mané. Usem da fé que é muito mais digerível que a ciência. Além do que, não exige nenhum estudo. Para a fé, basta a fé. Entre o mito e a realidade, sempre o mito porque ele comove e reúne multidões: fascínio e asnice. Fé, mito e mentira são armas poderosas para emplacar uma eleição. Nossos algoritmos irão prestar esse socorro em cambio de alguns favores pós-eleição. Coisa bem corriqueira. Por exemplo: quem teve apoio dos criadores de elefantes, fará um projeto que obrigue cada família a ter um elefante em casa, mesmo que seja branco; quem teve apoio da Frog Princes Corporation fará um projeto que obrigue as mulheres a beijar sapos até acharem o príncipe; quem teve apoio da International War Company, vai obrigar a compra de armas e fuzilamentos diários como recreação pública; quem teve apoio da Give me money without complaining Trust Fund, vai aumentar a carga de impostos; quem teve apoio da Internationale Gesellschaft aus Büchern Verbrannt, fará projeto que obrigue as famílias a queimarem os livros.

A Be a Winner sabe que poucos são os eleitos e o resto que se dane. Abram champagnes, inaugurem templos e shoppings, disparem metralhadoras. Isso funciona. Os projetos que não se encaixam na tríade fé, mito e mentira, fazer o quê? Não adianta vir com essas bobagens de arte, feminismo, ciclovia, racismo, meio ambiente, lazer, horas laborais, jardins... Não dá voto e os algoritmos endoidecem! É preciso atitude: superficialidade, ornamento, tumulto e petulância, meio Brás Cubas. Nossos algoritmos bolaram os bordões da campanha. É raro quem não os venha usando: segurança, saúde, educação. É uma tríade. Vem acompanhada de mudança, política diferente, democracia, emprego e outras expressões que buscam seduzir o povo. Que lindo isso, né? Seduzir o povo! Tem candidato que promete saúde e educação, mas o seu partido aprovou a reforma da previdência e a redução de investimentos em educação e saúde. Outro fala em democracia, mas é a favor da ditadura e da exclusão social. Nossos algoritmos vão tratar de separar o joio do joio. O trigo que queime. Como no quadro do Pedro Américo, vamos pintar algo bonito, positivo, pra cima, desconexo de qualquer realidade, verdade e ciência. A propósito, os jingles são de matar. Os algoritmos os ressuscitam: música ruim pega. Fé!


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