Editorial

Mais responsabilidade, menos corporativismo

21 de Julho de 2021 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Na noite da última sexta-feira foi preso, em Gramado, o cirurgião plástico Klaus Wietzke Brodbeck. Ele foi alvo de uma ação da Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam) de Porto Alegre. Contra ele há 95 denúncias por abuso sexual. Entre as vítimas, mulheres de todas as idades, inclusive menores. Os relatos apontam para várias formas de agir, desde abusos físicos até a oferta de “troca de favores” para a realização de procedimentos. Para dar prosseguimento às investigações e poder comprovar os abusos, a Polícia Civil coletou material genético.

Não bastasse a gravidade das acusações, o médico acumula 23 processos éticos no Conselho Regional de Medicina do Rio Grande do Sul (Cremers). Ele teve o registro cassado em duas oportunidades, mas em ambos os casos a pena máxima foi anulada pelo Conselho Federal de Medicina (CFM), na capital federal. Ficou livre para novamente exercer a profissão. Livre também para manter uma rotina de abusos.

Um ato como este, especialmente causado por um médico, pode deixar marcas irreversíveis. Recentemente vimos e ouvimos em Canguçu relatos impactantes de mulheres abusadas por um ginecologista. A cada palavra das vítimas durante os depoimentos era expresso um horror que não é conhecido por muitos, mas que precisa receber a empatia de todos. Após a denúncia, divulgada pelo Canguçu Online e amplamente debatida na mídia estadual e nacional, o doutor foi preso preventivamente e conduzido ao Presídio Estadual de Canguçu. Não é o fim para esta história, mas um alívio a todas que sofreram de alguma forma com a violência pelas mãos que deveriam trazer a cura.

No caso do cirurgião preso em Gramado, a prisão foi tardia. Em nota, o CFM se manifestou apontando que “a atuação do conselho federal e dos conselhos regionais se caracteriza pelo respeito aos princípios da ética, da justiça e da idoneidade”. Na contramão disso, as “absolvições” permitiram ao criminoso a sequência das práticas notórias contra pessoas em um momento de vulnerabilidade.

Seja em Canguçu, em Gramado, Porto Alegre ou em qualquer lugar do país, os órgãos regulatórios precisam atuar com propriedade, sabendo avaliar cada caso que lhes é apresentado com clareza e também punindo os seus quando necessário. Em casos de tamanha gravidade, e que expõem tantas vítimas a um risco recorrente, é fundamental uma atitude responsável, que passe longe do corporativismo. Os conselhos - em especial os de Medicina - deveriam saber que prevenir sempre será melhor do que remediar.


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