Editorial

Mais do que nunca um dia para reflexão

14 de Maio de 2022 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Asexta-feira marcou o Dia da Abolição da Escravatura. Foi no dia 13 de maio de 1888 que a Lei Áurea foi assinada, deliberando a libertação de todos os escravos em território brasileiro, após muita resistência e uma luta popular. Ao longo dos tempos essa data que carrega toda uma simbologia de liberdade foi muito lembrada, mas nem sempre respeitada, como comprovam os últimos acontecimentos. Ainda na sexta, 13 de maio, 134 anos depois da abolição da escravatura, veio à tona a notícia de uma mulher de 72 anos, resgatada no Rio de Janeiro em condições análogas à escravidão.

A idosa tem 86 anos de vida. Trabalha desde os 12 no mesmo local, servindo a três gerações de uma mesma família e perdendo o vínculo com os seus próprios familiares. Ela não tinha cama, dormia em um sofá. Também não tinha direitos trabalhistas, salário ou qualquer noção da gravidade da situação em que vivia.

Apesar de 1888 ser já longínquo, o Brasil carrega ainda o peso de ser um dos últimos países a abolir a escravidão no mundo. E episódios como este, do Rio de Janeiro, infelizmente não são incomuns. Em abril, outra idosa, esta de 89 anos, também foi resgatada. Ela vivia em São Paulo e trabalhava como doméstica há 50 anos para os mesmos “empregadores”. Ela era impedida de guardar valores, inclusive dinheiro em espécie, e nunca conseguiu sair para solicitar novas vias de seus documentos, sob ameaças de perder abrigo e alimentação.

Ao longo de 2021, de acordo com o Ministério Público, mais de 1,9 mil pessoas foram encontradas em situações de escravidão contemporânea no país - e apenas quatro Estados não tiveram registros (Acre, Amapá, Paraíba e Rondônia). Desde 1995, quando o Brasil reconheceu diante das Nações Unidas a persistência do trabalho escravo em seu território, foram mais de 57 mil resgates.

Cada trabalhador identificado e libertado é uma conquista. Mas por mais que tenhamos vivido um período de avanços significativos sobre o tema, é preciso mais. É preciso também avançarmos como seres humanos. A desigualdade social é um vetor para a manutenção do cenário de risco aos mais vulneráveis socialmente. Além disso, as redes sociais hoje se tornaram uma ferramenta de propagação de violência racial. Tudo o que nos remete ao período que precedeu 1888 de uma forma tão negativa não pode ter espaço no Brasil atual. Podemos celebrar o 13 de maio, mas sempre mirando um futuro melhor.


Comentários