Artigo

Luto profundo leve

12 de Agosto de 2019 - 08h05 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por Paulo Rosa - prosasousa@gmail.com

O oximoro da entrada tenta pôr em palavras - não o alcança - o que se passava nas almas ali presentes. Tristes todos estávamos, leves estávamos todos. A recém-trespassada Helena Almeida Mascarenhas comandava com discrição o momento, como tanto fez em vida. Irmanava-nos um sentimento comum: havia ela vivido a pleno e nos induzia, por isso, a vivermos coletivamente a mescla de falta, tristeza, leveza, plenitude, presença. E a temermos menos a morte. Em seu traje derradeiro, multicor e elegante, o colar de contas, a maquiagem discreta, os cabelos e a pele sem artifícios. Animava-nos sua paz. Amou e amou devotadamente a música brasileira, com que embalava os cinco filhos quando pequenos, que agora, grandes, partilharam ali conosco a flauta e o cantar de todos: “quando eu morrer, não quero choro nem vela, quero uma fita amarela gravada com o nome dela...” De qualquer modo, surpreende que a morte da grande dama mobilize gratidão e fraternidade, e assim falamos todos, em uníssono, na voz de uma das filhas adotadas.

Leu clássicos e muitos contemporâneos. Entremeava romance e poesia. Quanto curtia Ferreira Gullar!, em especial o exílio dele na Argentina, quando produziu a obra maior Poema sujo. “Escrevi o Poema sujo em 1975, em Buenos Aires, depois de anos de exílio em Moscou, Santiago do Chile e Lima... desgraçadamente, logo a situação política se agravou... à minha volta, os amigos começaram a ser presos ou fugir... decidi, então, escrever um poema que fosse o meu testemunho final, antes que me calassem para sempre.” A situação trágica vivida pelo poeta a comovia e ela sabia valorizar o contexto em que se gestou o especial poema, sensibilizada pelo relato de Gullar: “estava exausto e iluminado, sabia que uma ampla aventura se iniciava... de maio a agosto, vivi entregue ao poema... era o poema se fazendo, me usando para se fazer”. E era “sujo” porque falava daquele Brasil de então (de então?), “versos ‘sujos’ e, portanto, sinceros”, disse Otto Maria Carpeaux. A condição do drama vertido em poema a tocava um tanto, como a perplexidade do poeta: “eu não sabia tu/não sabias/fazer girar a vida/com seu montão de estrelas e oceano/entrando-nos em ti.” Ou os dramas do dia a dia: “como se não bastasse o pouco dinheiro, a lâmpada fraca,/o perfume ordinário, o amor escasso, as goteiras no inverno”. Ou mais adiante: - “Que faço entre coisas?/ - De que me defendo?” Mergulhava em Gullar, trazendo à tona o que absorvia, gestos e palavras breves, “palavras ditas à mesa do jantar,/voais comigo/sobre continentes e mares/E também rastejais comigo/pelos túneis das noites clandestinas”, nos dizia, num tímido sorrir. Preferia brasileiros, mas tolerava o francês Queneau e o desaforo no Poema para a posteridade: “... e se eu escrevesse um poema/para a posteridade?/... que grande ideia/... para a posteridade eu digo:/m...! rem...!/rerem...!/sem dúvida, enganei a posteridade,/que esperava seu poema”. O sorriso discreto, ainda.


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