Artigo

Lula, Bolsonaro e os gnomos tropicais da Terra do Nunca

23 de Outubro de 2021 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por Eduardo Ritter - professor do Centro de Letras e Comunicação da UFPel
rittergaucho@gmail.com

Tanto na realidade, quanto na ficção, o mundo sempre foi formado por três tipos de personagens: protagonistas, coadjuvantes e figurantes. É assim em todas as áreas. Na política brasileira, por exemplo, hoje temos apenas dois protagonistas: Lula e Bolsonaro. No segundo escalão estão os coadjuvantes, mas que andam tão sem sal que ninguém liga para eles, enquanto o resto é figurante. No futebol, em termos clubísticos, hoje temos três protagonistas no país: Flamengo, Atlético-MG e Palmeiras. Óbvio que nos dois exemplos citados, as mudanças são constantes. Nos anos 1970, Inter e Cruzeiro foram protagonistas. E nos anos 1980, Grêmio e Flamengo dividiram o espaço. Por sorte ou azar, tudo muda o tempo inteiro.

Na literatura, por outro lado, não há espaço para essas trocas de posições, pois são narrativas com começo, meio e fim, mesmo que o final da obra permita ao leitor imaginar o futuro dos personagens e trocá-los de posição. No entanto, temos vários personagens que foram colocados como coadjuvantes pelo autor, mas que ganharam o status de protagonista na avaliação dos leitores. O mais emblemático de todos, na minha humilde opinião, é Sancho Pança, o fiel parceiro do protagonista Dom Quixote. Sancho é uma figura engraçada, ingênua, de bom coração e sonhadora. Embarca nas loucuras de seu vizinho e amigo acreditando na promessa de que vai ganhar uma ilha para governar. E nas aventuras de cavaleiro andante, ele ganha destaque, sempre fazendo perguntas impertinentes na hora errada, sendo esculachado pelo seu comandante e tentando dar um sentido para as visões distorcidas do fidalgo Dom Quixote. Um coadjuvante que conquista corações de leitores ao longo dos séculos ao ponto de sempre estar ali, a um passo de ser protagonista.

Outros dois exemplos de coadjuvantes que ganharam destaque vem dos sempre citados Jornalismo Gonzo e Literatura Beat. Em Medo e delírio em Las Vegas, Dr. Gonzo, o advogado samoano que acompanha o protagonista Raoul Duke nas andanças por Vegas, se tornou o queridinho de muitos leitores pela sua falta de noção e hilaridade. Quando ele leva para o quarto de hotel uma moça desconhecida atormentada por narcóticos e Duke pergunta: "whatahell??", ele simplesmente dá de ombros, pois não ligava e nem imaginava as consequências de seu ato insano. Já o livro On the road, de Jack Kerouac, é praticamente impossível de ser imaginado sem a presença do coadjuvante Dean Moriaty, inspirado em Neal Cassady. Ele é simplesmente uma metralhadora de pensamentos e longas frases filosóficas, descritivas e espirituais; um poço de inspiração que nunca termina e que contagia o leitor.

Nas telinhas, estou assistindo a série Succecion, que teve a terceira temporada lançada nesse ano, seguindo a dica do jornalista Ticiano Osório, do jornal Zero Hora. É engraçado, pois os coadjuvantes são tão fracos e subalternos que nos fazem torcer pela raposa velha e sem colhões do Logan Roy, dono de um fictício império das comunicações americanas. Estou terminando a primeira temporada, e ainda estou vendo se algum dos coadjuvantes ainda vai se destacar. Eu apostaria no Roman Roy, playboy metrossexual e filho de Logan, ou no desastrado e engraçadíssimo Greg, parente distante e interiorano que se infiltra na família.

E para 2022? Será que algum coadjuvante político vai se inspirar nesses personagens secundários para beliscar um protagonismo? Ou Lula e Bolsonaro vão se manter como personagens principais do País que, globalmente, é apenas um figurante na comparação com os grandes centros de desenvolvimento econômico e tecnológicos do mundo? A resposta eu não tenho. Minha única certeza é que a próxima temporada da série "Os gnomos tropicais que vestem verde-amarelo" já está sendo ansiosamente aguardada na Terra do Nunca.


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