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Luiza Cavalcanti Filha: poetisa e feminista pelotense?

30 de Outubro de 2020 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -
Capa do livro Direitos das mulheres e injustiças dos homens, traduzido por Nisia Floresta e publicado no Brasil em 1832 (Foto: Reprodução)

Capa do livro Direitos das mulheres e injustiças dos homens, traduzido por Nisia Floresta e publicado no Brasil em 1832 (Foto: Reprodução)

Josefina Álvares de Azevedo, criadora do jornal A Família em 1888 (Foto: Reprodução)

Josefina Álvares de Azevedo, criadora do jornal A Família em 1888 (Foto: Reprodução)

Poema de Luiza Cavalcanti Filha, publicado no jornal feminino A Família, em 8 de Dezembro de 1888 (Foto: Reprodução)

Poema de Luiza Cavalcanti Filha, publicado no jornal feminino A Família, em 8 de Dezembro de 1888 (Foto: Reprodução)

Por: Luís Rubira, professor do Departamento de Filosofia da UFPel

"Sectária fervorosa do adiantamento intelectual da mulher (...) irresistivelmente impelida pelo desejo veemente de vê-la a ascender à esfera luminosa do pensamento, ouso delinear duas palavras sobre o transcendente assunto (...). No alvorecer da existência (...) o jovem Brasil almeja progredir, elevar-se à amplitude das cultas potências europeias, o que não conseguirá enquanto não compenetrar-se da absoluta necessidade de instruir a mulher, esta importante parte da dualidade humana (...). Estude a donzela, despreze os bailes, os vãos saraus, onde, imperceptivelmente desprende suas asas cândidas, dedique-se ao cultivo do intelecto" (Correio Mercantil, 29/04/1886, apud Renata Gonçalves, "Livros e Leituras na cidade de Pelotas/RS", tese de doutorado, 2010).

Luiza Cavalcanti Filha tinha dezesseis anos quando escreveu estas palavras no artigo "Falemos da Mulher", no qual contrapunha-se ao modo como a escritora portuguesa Maria Amália Vaz de Carvalho compreendia o universo feminino. Dois meses antes, vamos encontrá-la publicando um poema de sua autoria, no qual transparecia sua sensibilidade: "Em vasta sala dourada, / Com ares de morbideza, / Cisma a pálida marquesa / À poltrona reclinada. / Julia, encostada ao piano, / Oscula a mão do avô, / Ao passo que Cristiano / Lamenta a morte de Hugo. / D'auriverde sacada / Volta-se, alegre, engraçada, / A pequenina Sinhá, / Que, graciosa e gentil, / Com doce voz infantil, / Exclama: 'Vou ver papá'" (O Cherubim: periódico semanal dedicado ao Bello Sexo, RJ, 21/2/1886, p. 2). Poucos meses depois, é justamente como poetisa que ela dá a público seu primeiro livro: "Apareceu um volume de versos, com o título Alvoradas, produção da Exma. Sra. D. Luiza Cavalcanti Filha" (A Federação, Porto Alegre, 9/6/1886, p. 2).

Jovem escritora que nascera em Pelotas em 3/8/1869, seu livro é recebido por um periódico da capital do país (Cf. A Semana, RJ, 21/8/1886, p. 275), no qual surge uma crítica por parte do colunista Alfredo de Souza que iniciará por dizer que "As Alvoradas de V. Ex. não tem a frescura benéfica e poética do despertar dos bons dias", em seguida lamentará o fato dela ter deixado o livro ser prefaciado por Francisco de Paula Pires e por fim saudará nela a "distinta poetisa de amanhã" (A Semana, RJ, 4/9/1886, p. 288).

Incompreendida nos versos que escrevera desde a mais tenra idade, ela seguirá escrevendo textos em defesa da emancipação da mulher, bem como publicando seus poemas. 

É o caso, por exemplo, do artigo "Tratemos de nós" que envia em 1888 para o recém fundado jornal "A família", um periódico que havia sido criado por Josefina Álvares de Azevedo, considerada como umas das precursoras do feminismo no Brasil. Eis um trecho: "Protestamos contra essa falange de homens detratores de nossas faculdades físicas _ satélites de vetustos preconceitos, que creem-nos apenas uma entidade material. Possuindo a humanidade, sem distinção sexual, os mesmos elementos celulares, o que atesta a biologia, é a mulher por consequência acessível às mais altas leis da lógica. (...) Aspiramos, porém, que toda a mulher, sem privilégio de classes, consagre às letras, advogue seus direitos incontestáveis _ emancipe-se _ fuja às tredas noites da ignorância, que a condenam ao perpétuo ostracismo do templo luminoso de Minerva, para surgir radiante na esplêndida alvorada do porvir!" (A Família, SP, 8/12/1888, p. 1-2).

No jornal "A Família" também encontramos sua verve literária em poemas como "Cromo" e "O retrato" (Idem, SP, 8/12/1888 e 4/5/1889, p. 8). Atuando em prol de direitos iguais, ela expressava suas ideias também em outros periódicos, escrevendo: "A democracia é o elemento integrante da civilização" (O Crepúsculo: Gazeta Literária, SC, 8/7/1889, p. 3). E podemos adivinhar algo acerca de sua formação intelectual e de seu gosto em escritos como "A Formosura", no qual observa: "Admiramos Corina, a eximia poetiza grega, salientando-se nos jogos Olímpicos de Píndaro, do primeiro lírico seu contemporâneo; porém, conhecendo-lhe a rara formosura, multiplicamos a nossa admiração" (Almanak Litterario e Estatistico, 1890, p. 123).

Falecendo aos vinte e dois anos de idade, sua morte foi lamentada em diversos círculos que a admiravam: "Em Pelotas faleceu a talentosa jovem sra. d. Luiza Cavalcanti Guimarães, poetiza e prosadora. Era casada como o cidadão Mathias José Freitas Guimarães, secretário do Lyceu Rio-Grandense de Agronomia e Veterinário. A finada era autora do livro de versos intitulado _ Alvoradas" (O Republicano, Sergipe, 9/4/1891, p. 2). Anos depois, seu único livro de poemas publicado em vida viria a receber um comentário bastante sensível e favorável por parte de Sacramento Blake: "D. Luiza Cavalcanti Filha _ Natural do Rio Grande do Sul, cultivou com elegância e gosto a poesia e escreveu: Alvoradas: poesias. Pelotas, 1886, 96 pags. in-8. São 69 composições prefaciadas por Francisco de Paula Pires (...). Seus versos são belos e naturais, sem palavrões ou termos estudados, como usam os poetas modernos" (Dicionário Bibliográfico Brasileiro, RJ, V. 5, 1899, p. 482).

Que mais sabemos sobre Luiza Cavalcanti Filha? Muito pouco. Apenas que a causa de sua morte teria sido por tuberculose (Bruschini & Rosembert, "Vivência: história, sexualidade e imagens femininas", Brasiliense, 1980, p. 145), que ela teria deixado um "pequeno livro de crônicas: A formatura" (Novaes, Dicionário crítico de escritoras brasileiras: 1711-2001", 2002, p. 379) e que publicou muitos de seus "poemas em jornais e revistas de Pelotas" (Bezerra, "Antologia de poetas brasileiras no século XIX", 2003, p. 200). De todo o modo esperamos que, ao contrário de Corina, que levou anos para ser resgatada do esquecimento entre os gregos, ela possa em breve encontrar um lugar ao sol no plano das investigações literárias e das pesquisas que buscam refletir sobre os primórdios do movimento feminista no Brasil.

 


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