Loucura e política, um novo conceito

19 de Agosto de 2018 - 18h34 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Paulo Rosa
Hospital Espírita, Caps Porto, Ambulatório Saúde Mental - prosasousa@gmail.com

Neste segundo Congresso sobre a Loucura, com o tema de 2018, Loucura e política, examinaremos as diferentes formas de entrelaçamento que surgem no estudo dessas áreas, tão desmedidamente humanas.

Chove-se no molhado ao dizer que tudo que é humano é político e é louco. Sobra literatura a respeito. Do meu lado, ando com interesse em examinar de que forma as políticas hegemônicas, os sistemas estabelecidos, a cultura vigente, em suma, o pessoal que manda é capaz de se infiltrar em nosso, dos psiquiatras, afazer diário e dentro da nossa mente. Do que vi, o que mais gostei é o extenso estudo do historiador uruguaio José Pedro Barran, três volumes, Medicina y sociedad en el Uruguay del novecientos, 1995. No volume 3, La invención del cuerpo, a frase de abertura é auspiciosa: Los sueños de la ciencia pueden ser ingenuos y monstruosos. As trezentas páginas que se seguem vão no mesmo ritmo. Barran não alivia a mão. O saber médico, como um todo, forma parte da cultura e não é em nada imune a suas influências, coisa ignorada nas faculdades. Colegas e amigos, nosso saber, além de modesto, está trespassado pelas adagas diretivas da cultura normalizadora. Dessa cultura que nasceu no século 19 e no Novecentos é de onde veio o afã médico de valorizar e querer apreender os "fatos" reais em sua plena "brutalidade", e a crença - infame - de que isso era, não só possível, como fácil. Essa cultura direcionadora se infiltrou nas estruturas sociais, econômicas, políticas e mentais. Estas últimas, seus valores, suas convenções, lugares-comuns, temores, ansiedades, comumente complexos e contraditórios, nutriram o saber médico a partir de então, chegando, sem dúvida, até nós, hoje.

Quem tem ainda dúvida de que "sempre se especula dentro de um pensamento anônimo e constritor, que é o de uma época e uma linguagem, que as palavras, as categorias e as imagens que utilizamos para definir o observado estão carregados de significados prévios e de ideologias"? (itálicos do autor, página 11).

Enxergamos só e somente só o que nos diz a cultura prevalente que devemos enxergar. É trágica para todos, médicos e demais, a revelação de que o próprio conceito de enfermidade está, óbvio, sob a ordem mental estabelecida. O risco de que os cursos das áreas de saúde formem apenas tecnólogos e não pensadores hipocráticos é constante e real. A hiperespecialização acrítica, que se consagrou nestas décadas, tem hoje valor de mercado, sendo essa tendência um filho, bastardo, dessa cultura que ama compartimentar e fazer política excludente.

O Congresso: dia 28/9/18, sexta, às 17h, anfiteatro do Hospital Espírita, 70 anos, entrada gratuita, aberta ao público. Participantes: Carlos Jardim, Aldyr Schlee, Luis Rubira, Renata Requião, Fábio Cerqueira, Paulo Rosa. Temas como Política da loucura e loucura da política, Derrida sobre Foucault, Uma mulher na Revolução Francesa, em debate.

 


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