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Longe, enlace, em laços

Não tinha facilidade com gente, não sabia cozinhar, não entendia de moda ou de decoração

11 de Fevereiro de 2013 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Andréia Alves Pires

Não era ninguém importante ou necessária na família, no trabalho, na vida de outra pessoa ou na sua mesma. Não tinha facilidade com gente, não sabia cozinhar, não entendia de moda ou de decoração, não tinha disposição para leitura nem para fotografia, não atinava aos números nem à geografia. Nenhum talento expressivo, nenhuma vontade de buscar em si algo que soubesse fazer bem e que pudesse compartilhar. Passava os dias sentada, isolada, calada, acinzentada, perdida, aparentemente paralisada. Do tanto que não possuía, uma aptidão nascia à força, sem permissão, sem lógica, sem freios: um jeito estranho de ver.

Enquanto olhava o tempo escorrer pelo andar dos ponteiros do relógio,  testemunhou algo raro essa moça, encostada no canto da parede, como quem se esforça em desaparecer do mundo real: uma cerimônia ao ar livre, num fim de tarde luminoso, convidados se acomodavam entre ciprestes altos, um casamento.

Apoiada na parede fria, ela chorava impotência, expurgava em lágrimas grossas certas culpas intuídas, soluçava fundo tentando apagar a própria inércia quando ouviu as cores que erguiam uma pirâmide cristalina no alto da sua cabeça. Da construção transparente formada por três lados regulares desciam raios lilases, azuis, rosa, violeta, dourados e prateados fundidos no branco puro, e de alguma estranha maneira a combinação dessas luzes abriu um rasgo entre dimensões e ela viu. Viu nítido como o filme bonito no cinema.

Havia o bosque de árvores compridas, que pareciam alfinetes verdes espetados ao contrário, querendo fincar para sempre o sol poente no céu, e havia a movimentação de risos, a atmosfera de um quase carnaval na rua, o corredor aberto por flores e pelas gentes dedicadas a contemplar aqueles dois. E, praticamente um retrato feito a pincel fino, a cena foi se armando em algum lugar da memória da moça. Ela viu os noivos se encaminhando a um futuro perdido num tempo em teia, sem linha e sem fim, eles aportavam no futuro-altar que era o rosto expressivo de um para o outro.

Ela viu uma noiva de cabelos castanhos claros, encaracolados e longos até a altura dos quadris e as flores pequenas recém-colhidas que tramavam a coroa simples. Viu a noiva dentro de um vestido rendado, provavelmente branco, arrastado na areia do caminho. Ela viu o noivo de vestes alinhadas, o preto antigo sobre a camisa branca, segurando firme a mão da quase esposa.

Viu. E viu com uma certeza de alma incurável, reincidente, maldita e brilhante. Aquela certeza conhecida que jogava essa moça ora para adiante, ora para trás, ora para lados desconhecidos, quase abismos, vezes para céus tão altos e indescritíveis que preferia guardar no silêncio a sensação e a imagem. Assim foi: ouviu as cores a reconduzirem ao topo da pirâmide translúcida e aos poucos recuperou a coragem para abrir os olhos, piscar, respirar fundo, secar o rosto nas mangas do casaco e pisar na lua cinza que era a vida de então.


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