Artigo

Lindóia

18 de Setembro de 2021 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por Sergio Cruz Lima

Lindóia é um dos mais belos episódios do Uruguai, primeiro poema épico nativista brasileiro, escrito por Basílio da Gama no século 18. Nele, a realidade e a lenda se confundem e se desconhece onde começa uma e termina a outra. O drama se desenrola no sul do país, nos Sete Povos das Missões, próximo do rio Uruguai. As terras são conquistadas pelos lusitanos aos espanhóis, numa guerra terrível que destrói a própria missão. Os limites do Brasil não estão ainda bem definidos e há lutas frequentes na região hostil e selvática. Os índios guaranis, não querendo deixar a terra onde nasceram, revoltam-se.

Lindóia, jovem apaixonada, acreditando estar morto o seu amado, procura na mata virgem um lugar infestado de cobras venenosas. Aí, reclinada, adormece à espera da morte. Uma serpente traiçoeira não tarda. Suavemente deslizando pelo pescoço abaixo, enterra afiadas presas no tenro seio moreno. Lindóia nem acorda. Mas a cunhã fora precipitada. O amado Cacambo, feito prisioneiro pelos brancos, é libertado mais tarde. Caitutu, o irmão, ao notar a ausência de Lindóia, corre a procurá-la, encontrando-a adormecida entre floridos jasmins. Alegre, avança para abraçá-la, quando vê horrorizado uma cobra venenosa enleada à jovem. Num relance, apruma o arco e atira uma certeira flecha, despedaçando-lhe a cabeça. A tremer de emoção, aproxima-se da irmã querida e constata, em desespero, que a morte já se apossara do corpo de Lindóia. Na fronteira gruta encontra encontra o suspirado nome de Cacambo, escrito inúmeras vezes, percebendo então ter ela ido à procura da própria morte.

Em "Uruguai", escrito em 1769, leio: "Um frio susto corre pelas veias / De Caitutu que deixa os seus no campo; / E a irmã por entre as sombras do arvoredo / Busca co´a vista, e treme de encontrá-la. / Entram enfim na mais remota, e interna / Parte de antigo bosque, escuro e negro, / Onde, ao pé duma lapa cavernosa, / Cobre uma rouca fonte, que murmura, / Curva latada de jasmins e rosas. / Este lugar delicioso e triste, / Cansada de viver, tinha escolhido / Para morrer a mísera Lindóia".

E conclui Basílio da Gama: "Nos olhos Caitutu não sofre o pranto, / E rompe em profundíssimos suspiros, / Lendo na testa da fronteira gruta / De sua mão já trêmula gravado / O alheio crime, e a voluntária morte. / E por todas as partes repetido / O suspirado nome de Cacambo. / Inda conserva o pálido semblante / Um não sei quê de magoado, e triste, / Que os corações mais duros enternece. / Tanto era bela no seu rosto a morte!".

Mineiro, Basílio da Gama é um dos principais representantes do arcadismo, sociedade literária típica da última fase do classicismo, cujos membros adotam nomes poéticos simbólicos, sendo que a primeira delas foi fundada em 1690 e composta por 14 poetas reunidos no palácio da rainha Cristina da Suécia. Membro da Academia Brasileira de Letras, sua obra maior, o poema Uruguai, trata da expedição mista de portugueses e espanhóis contra os Sete Povos das Missões para executar as disposições legais do Tratado de Madri, de 1756. O poeta morreu em Lisboa, aos 54 anos de idade.


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