Artigo

Lições de Rilke sobre arte e escrita

14 de Janeiro de 2021 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Thiago Perdigão, escritor e compositor

Considerado pelo escritor Otto Maria Carpeaux o “poeta mais atual e permanente de nosso tempo”, Rainer Maria Rilke (1875-1926) se destacou através de sua poesia voltada a imagens inesperadas, a um robusto cuidado com a forma e à preocupação com questões de cunho existencial, além do diálogo com outras artes, como a música e as artes plásticas. Com efeito, Rilke trabalhou cerca de um ano como secretário do célebre escultor Auguste Rodin, de quem sofreu grande influência, uma vez que algumas características da obra do escultor, como o tratamento sutil de temas mitológicos e o uso singular da alegoria, estão também associados à obra do poeta; e, da mesma forma que Rodin disse “foi Michelangelo quem me libertou da escultura acadêmica”, podemos dizer que foi Rodin quem libertou Rilke de algumas tendências poéticas então em voga, ajudando-o a encontrar-se a si próprio.

Conhecido por variadas obras, tais como “Elegias de Duíno”, “Sonetos a Orfeu” e “O livro das horas”, nos aprofundaremos aqui, porém, nas “Cartas a um jovem poeta”, que consiste na coletânea de correspondências enviadas por Rilke ao poeta Franz Kappus, através das quais legou-nos alguns preceitos e lições acerca da arte e da escrita, e cujo conteúdo exporemos resumidamente a seguir.

É recorrente a dúvida de um artista a respeito daquilo que ele deve privilegiar durante suas criações: exterior ou interior, o empírico ou o abstrato, o objetivo ou o subjetivo. A esse respeito, aconselha Rilke que, inicialmente não se deve olhar tanto para o exterior, mas entender-se a si próprio: “há apenas um meio. Volte-se para si mesmo” (p.24). Semelhante olhar interior, porém, se depararia com dúvidas e questões cruciais: “pergunte a si mesmo na hora mais silenciosa da madrugada: preciso escrever? Desenterre de si mesmo uma resposta profunda” (p.25). A partir de tal resposta, então, seria acessada a necessidade do artista, aquilo que realmente o motivaria e que consistiria no critério mesmo para a continuidade de sua vocação, pois “uma obra de arte é boa quando surge de uma necessidade. É no modo como ela se origina que se encontra seu valor, não há nenhum outro critério” (p.27).

Uma vez que essa necessidade estivesse estabelecida, o próximo passo consistiria na escolha do conteúdo, para o que, segundo o poeta, se deveria procurar, “como o primeiro homem, dizer o que vê e vivencia e ama e perde” (p. 25), de modo a estreitar a variedade dos assuntos à variedade das vivências pessoais, a fim de se ater às experiências realmente vividas profundamente, porquanto “é disto que se trata: de viver tudo. Viva agora as perguntas. Talvez passe, gradativamente, em um belo dia, sem perceber, a viver as respostas” (p.43). Essa vivência, todavia, não poderia, segundo Rilke, ser apressada ou procurada obsessivamente, mas teria, antes, de ser amadurecida lentamente: “ser artista significa: não calcular nem contar; amadurecer como uma árvore que não apressa sua seiva e permanece confiante durante as tempestades da primavera, sem o temor de que o verão não possa vir depois” (p.36).

Aquilo que foi gestado pelo artista durante tal tempo de amadurecimento poderia, segundo o autor, ser ainda ajudado por qualquer tipo de ambiente, ao contrário do que pensariam alguns puristas, pois “para o criador não há nenhuma pobreza e nenhum ambiente pobre, insignificante” (p.26); e, uma vez gestada e finalizada a obra do artista, Rilke lhe aconselha ler “os versos como se fossem alheios, para sentir de maneira mais íntima o quanto são seus...” (p. 64). Por fim, o assunto mais tratado pelo poeta ao longo das cartas consistiu na necessidade da solidão por parte do indivíduo criativo, sem a qual ele não poderia conhecer-se a si mesmo e colocar-se no estado propício à criação autêntica; nesse sentido, escreveu: “ame a solidão e suporte a dor que ela lhe causa com belos lamentos” (p.47).


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