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Liberdade, Igualdade e Humanidade

14 de Julho de 2020 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Adolfo A. Fetter Jr., ex-prefeito de Pelotas

É notório que, em poucos estados do país, os habitantes têm o carinho e o respeito que os gaúchos demonstram por nossos Símbolos, incluindo o próprio Hino Rio-grandense, que todos sabemos cantar. Sabe-se, a BANDEIRA do RS foi criada na Revolução Farroupilha, mas o Brasão foi adicionado a ela no início do período republicano, sendo que o lema abaixo dele teve a palavra Humanidade incluída por Júlio de Castilhos, governador do Rio Grande do Sul e o autor da primeira Constituição gaúcha após a proclamação da República.

É importante lembrar que o lema da Revolução Francesa -"Liberdade, Igualdade e Fraternidade" - serviu de inspiração para nossos republicanos de então, conforme ficou evidenciado.

A mudança de uma palavra pode parecer irrelevante, mas revela de certa forma que os revolucionários da República Velha eram "positivistas", enquanto os originais franceses que os inspiraram eram "humanistas". E como ficam estes ideais em tempos de pandemia? São ainda atuais, passados 185 anos desde a Revolução Farroupilha de 1835 ou 130 anos da implantação da República no Brasil?

Devemos reforçá-los ou atualizá-los? Afinal, estamos vivendo "momentos inusitados", com alterações importantes em nosso comportamento e hábitos, e fala-se que, no futuro, teremos um "novo normal" (ou seja, a vida não será igual ao que era antes...).

A atual gestão estadual adotou como lema uma adaptação de parte do Hino - "novas façanhas" - evocando a tradição ("...sirvam nossas façanhas de modelo a toda a terra...") mas sugerindo que é a hora de retomar o "espírito inconformista" do passado e que nos levou a enfrentar o país (Império) em uma Revolução até "separatista", só encerrada após dez anos de combates e embates pelo espírito conciliador de Caxias.

No entanto, é importante lembrar que, de lá para cá, isto também ocasionou profunda repercussão nos rio-grandenses, eternamente divididos entre "chimangos" e "maragatos" por gerações, o que se reflete até no futebol (Gre-Nal, Bra-Pel, Ca-Ju, etc).

Uma "parada de reacomodação

Este tradicional inconformismo que pautou nossa história e forjou nosso caráter é confrontado e desafiado pela pandemia e por "novos dilemas". Muitas de nossas autoridades - cotejadas pelo desafio desconhecido e imprevisível deste novo vírus -, aparentemente se deixaram "contaminar" pelos sentimentos do medo e do pânico naturais em situações desafiadoras como esta, adotando comportamentos que não se coadunam com os ideais tão arraigados em nossa cultura.

Como decorrência, o que estamos vendo é a adoção de medidas duras e impositivas, baseadas em uma "concepção ideológica da ciência" e que desconhece os "conhecimentos empíricos" que foram adquiridos na prática em todos os lugares anteriormente afetados pela pandemia.

O que se observa - tanto aqui como em outros lugares onde também predominou esta visão parcial da realidade - é que a possibilidade de determinar os comportamentos adotados pela população também se revelou uma "concepção política" de governar. O que está subjacente é a crença na "superior capacidade" de decidir de quem está no Poder.

Ora, é óbvio que escolhemos governantes para tomar decisões e conduzir nossos destinos e lhes cabe esta tarefa e estas responsabilidades. No entanto, a sociedade não lhes delegou a "autoridade absoluta", nem acredita em seu "poder supremo" de tudo saber...

Os princípios básicos de uma democracia estão no respeito às liberdades individuais e coletivas e na limitação do poder, sem o que ela fica ameaçada e solapada. Quando governos se arvoram em saber mais do que os governados e em querer impor suas visões políticas, desrespeitando os direitos dos cidadãos, é hora de lembrá-los que seu "patrão" é o povo e não vice-versa.

Não reconhecer isto - por mais que se esteja enfrentando uma "situação excepcional" - é desconhecer as lutas do passado e avanços duramente conquistados.

A "maioria silenciosa"

Após quatro meses de excepcionalidades legais e de "governos sob Decreto" são crescentes as manifestações de desacordo e de desaprovação deste permanente "estado de emergência", ou mesmo de "calamidade". Algumas delas prudentes e com a mensagem de "alerta", outras tantas radicalizadas e contundentes.

O ex-presidente do TJ José Aquino Flores de Camargo, em artigo "Ressuscitem Churchill" (que compartilhei nas redes), afirmou que "Até agora, estamos sendo conduzidos como rebanho pela lógica do pensamento único: quem discorda é rotulado por atentar contra valores básicos de vida. Que falta a humanidade sente de um homem como Winston Churchill. Não se vence uma guerra sem sangue, suor e lágrimas." E mais adiante destaca que "Aqui, ficamos em casa para quebrar, esperando o milagre da vacina. E, dizem, até medicamentos e insumos já estariam faltando... Que Deus nos ajude, porque nós estamos sentados."

Em nível local, dentre tantas outras manifestações, reproduzo também parcialmente o que escreveu o médico Mario Ivan Caminha Sclowitz, no Facebook: "Quem pensa que o vírus está de férias no Brasil, está muito enganado; iremos conviver com ele para o resto de nossas vidas, todavia, mais de 90% da população nem sequer apresentará sintomas. Estão destruindo as empresas, os empregos, as rendas públicas. Quando o dinheiro federal acabar, teremos a sensação de terra arrasada. Abra os olhos e levante a cabeça, meu povo! Chega de desmandos! Não se submeta às arbitrariedades de miniditadores municipais e estaduais. Ignore a esquerda e a nova esquerda, disseminadoras do "fique em casa", as quais querem fechar o Brasil e abrir somente em 2022. Eles estão esperneando nas redes sociais, mas sabemos que são minoria."

Também em artigo na imprensa de Pelotas o arcebispo dom Jacinto Bergmann nos alerta que necessitamos conciliar "Racionalidade e Solidariedade" e afirma que "... nesta situação pandêmica necessitamos (...) razão e coração andando juntos. Que nossa razão seja cardíaca e nosso coração racional. Assim, seremos capazes de enfrentar a pandemia e sairemos fortalecidos como humanidade".

Poderia continuar com citações parciais de manifestações públicas as mais variadas (inclusive médicas), mas isto seria por demais alongado e cansativo. Além disto, basta consultar as redes, que se terá acesso a muitas - e crescentes - manifestações desta natureza.

Que sirvam de alerta para evitar novos confrontos e a desobediência civil, ou algo ainda mais grave. Realmente me parece que é hora de reler nosso Hino, reacender nossos valores e relembrar nossas autoridades que, mesmo que estejam bem intencionadas, já "passaram dos limites" e precisam de um "banho de humildade" e de uma "postura de estadistas", para poderem reunificar os gaúchos. Ainda é tempo de retroceder, pois pior é insistir no erro!


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