Opinião

Ler é fortemente prejudicial à tua ignorância

25 de Junho de 2018 - 07h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por Paulo Rosa - Piratini, Hospital Espírita
prosasousa@gmail.com

O título vem de algo que vi numa parede, em Lisboa. Gostei. Quem não gosta de propaganda engraçada? Era na entrada de uma livraria, o cara se deu. Deve vender. É que passamos a vida às voltas com o que fazer com a dita cuja, que, de tão magnífica, não se lhe vê. Em primeiro lugar, mandam as escrituras, há a tarefa de reconhecê-la, dar-se conta de sua generosa onipresença, mesmo sem ser chamada. Uma boa arrancada é começar a rir dos pedantismos, próprios e alheios, e finar-se de rir ao nos mostrarmos arrogantes, doutores, sabedores dos supremos saberes. Para tanto, não é necessário torturar-se a ouvir audiências do STF. Comecemos, modestamente, por casa. Parta-se da posição de marido, filho, pai, irmão, subalterno ou patrão, ouvindo o que nos sai da própria boca. Há que desconfiar deste orifício, pois, com frequência, emite palavras que, pensando bem, não quereríamos dizer, embaladas que vêm em invólucros os mais vistosos. Seria uma chatice ter de gravar tudo o que digo para me dar conta das besteiras que me saem boca afora, mas esse pode ser um método avalizado pela senhora ciência, e eficaz para círculos os mais eruditos.

Uma vez sabedor de que a madrasta está contigo dia-e-noite, parte-se para o passo segundo, onde se indica atenção às exalações orais dirigidas às pobres crianças. Quem não se mete a sábio diante da meninada? A santa ignorância recomenda crer que, por pequenas, nós é que sabemos, mais do que elas, por sermos grandes. É a velha armadilha de que tamanho é documento, sou grande, logo sei, sou velho, logo conheço, sou adulto, vejo, tu não sabes. O mais difícil que há é não expelir arrogâncias diante dos guris. Detectadas manifestações ignorantes, tipo “cheio de si”, há que rir de si mesmo, acompanhando-se, na ocasião, de desculpas aos miúdos, jurando não as repetir, coisa nunca cumprida, sabemos.

Não dispondo de crianças, testa a presença maiúscula da malévola na relação com subalternos, na ausência destes, com teus pares, e, se ainda faltarem, contigo próprio. Saibas, por graduados geneticistas, a ignorância está nos teus genes, não tens escapatória, por isso recomendam-se esses cuidados acima que, com sorte, a disfarçam.

Não é que se alguém nos chama de ignorantes nos sentimos ofendidos? Quando tal ocorre estamos, na verdade, a ouvir o ululante, o mesmo dizer que tenho cabeça, tronco e membros e eu me sentir, por isso, incomodado.

Ler, nos resta. Nada tenho a recomendar, mas, vejo que peleio contra a minha, lendo a Bíblia do caos, do Millôr: “O pouco que a gente sabe bota na vitrine. E o montão que ignora esconde no porão. A ignorância é o que todo mundo tem na mesma proporção, só que em outra coisa. Ignorar é a única defesa possível contra a ignorância. Quem não sabe, acredita”. Ou, sem Millôr, recorro a Lacan: “Os não tolos erram”. Ambos são indigestos, mas, acho, ajudam no convívio.


Comentários

Diário Popular - Todos os direitos reservados