Artigo

Lembrando os anos 70

21 de Novembro de 2020 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Sergio Cruz Lima, colaborador

"Eu não acredito em Kennedy/ eu não acredito em Buda/ eu não acredito em mantra/ eu não acredito em Gita/ eu não acredito em yoga/ eu não acredito em reis/ eu não acredito em Elvis/ eu não acredito em Zimmerman/ eu não acredito em Beatles/ eu só acredito em mim", canta John Lennon, em God, na abertura dos anos 70. Quem viveu intensamente os anos 70 como eu vivi, está condenado a não se lembrar deles. Pelo menos não inteiramente. Há uma ironia tão grande nisso, uma ironia tão ... anos 70. Porque foi uma década de experiências com rara intermediação. Não importava, realmente, se havia ou não registro, memória, inventário do que se experimentava. A captura do momento fugaz em toda a sua intensidade era privilégio e tormento de cada um. De cada uma. Não eram experiências para serem lavradas em ata. Eram para ser carregadas no mais íntimo do ser. Uma coisa interessante acontece quando nos abandonamos assim tão completamente ao voo do instante: ele assume as características do sonho, algo muito nítido guardado em uma outra realidade que não conseguimos mais habitar inteiramente mas temos certeza de que existiu. Existe.

Na limpidez da distância, os anos 70 aparecem com um valor que não se suspeitava: as raízes das delícias e dos horrores do novo século estão inteirinhas ali. Le triomphe du corps. L´horreur politique. Satiété. Mesquinerie. Interatividade e crise do petróleo. Aiatolás no Irã. Un menteur dans la Maison Blanche. A possibilidade de uma sociedade mais justa, com lugar para as vozes de crianças, jovens, mulheres, homossexuais, místicos, alternativos, e a realidade de sociedades em que nada disso era sequer o bosquejo de uma vontade.

Para efeito de pessoal organização das ideias - peço licença ao leitor! - para fracionar a análise dos anos 70 em dois. Porque os anos 70 não são apenas individuais. Idiossincráticos. Tribalizados. Eles são também duas décadas em uma. A primeira delas é, por assim dizer, um rescaldo dos anos 60. Sistema e alternativa. Superfície e subterrâneo. No Brasil, o subterrâneo é mais embaixo: de 1970 a 1974 vive-se sob a sombra do AI-5, no qual quase tudo é proibido. Lá fora, os primeiros 70 são os anos de Nixon, a agonia do militarismo ianque no Sudeste Asiático, Watergate, a derrota no Vietnã e a escalada do poder da Opep. É uma era psicodélica: as drogas em uso são as da calma, da reflexão, da viagem. A segunda década é a pré-estreia dos anos 80. A diversão é uma palavra de ordem; a dança, uma expressão. No Brasil são os anos da abertura "lenta, gradual e segura". A tensão se desfaz em vários núcleos: discotequeiros e punks, roqueiros e naturebas, surfistas e playboys. É uma era trincada: a cocaína torna-se onipresente a partir de 1975, mudando tudo - a percepção do tempo, a estrutura do crime, a intensidade e o ritmo da música, as anomalias do afeto, a distribuição do poder nas cidades. É uma década de ruído. 

Para balizar a jornada no período - não esqueçamos que são dez anos de vida! - escolhi, aleatoriamente, David Bowie, como alguém que soube transformar a experiência de viver em obra de arte. E a obra de arte em experiências de vida. Olhando para Bowie, é sempre possível saber onde se está na década. À la fin: n´est pas une carte géographique. C´est une pâtisserie! Não é necessário nem ter vivido então ou sequer ter nascido por lá. O tempo fica e está sempre disponível. Nós, homens, seres efêmeros e transitórios, é que passamos.


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