Artigo

Lêdo Ivo engano

30 de Novembro de 2020 - 10h48 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por Paulo Rosa, Hospital Espírita, Caps Porto, Ambulatório Saúde Mental, Telemedicina PM Pelotas - prosasousa@gmail.com

A piada de salão literário - e sem graça - do título já teve seu auge. Hoje entrou em declínio e só lembrarão dela os que transitam há cinco décadas, ou mais. Mesmo ‘ledo engano’, quem ainda usaria a vetusta expressão?
Mas, o assunto é Lêdo Ivo, poeta poderoso e cortante, que muito bem faz a ouvidos que andam à cata de sentidos. Para tempos de pandemias múltiplas: políticas, virais, econômicas, existenciais, o que melhor que poesia potente? Lêdo Ivo (1924-2012), que nasceu nas Alagoas, no livro Confissões de um Poeta, 1979, conta que seu nome é, de fato, curioso e que muitos já lhe perguntaram ‘Lêdo Ivo de quê?’

Por questões de saúde, recomenda-se Lêdo Ivo em pequenas doses, pois ele pertence ao time desassossegado de Fernando Pessoa, ou seja, há risco de overdose, lendo-se mais de duas páginas de uma sentada.

Lá pelas tantas Lêdo Ivo sugere ‘que o leitor dê o primeiro passo’ (pág.211), mas, sem esperar que tal aconteça, ele desfere uma rajada de versos em prosa que levam o leitor a caminhos estreitos: ‘a felicidade dos jovens é que eles ignoram que, após a juventude, vem a velhice...somos todos subterrâneos. Dentro e fora de nós, tudo é labirinto e profundeza...as flores autênticas estão sempre no outro lado do jardim...a ambição, esse passatempo funesto pelo tédio de existir...os animais parecem ser mais reflexivos do que os homens. Enquanto estes são, de regra, rancorosos e impacientes, os bichos passam, horas seguidas, imóveis e silenciosos, entregues ao que, neles, é expectativa, pensamento ou tédio de existir...a nossa vida é, na verdade, a história do dinheiro que conseguimos ganhar. Ou talvez a história de nossas dívidas...’

No caminho, Lêdo Ivo confessa: ‘talvez eu pertença, artisticamente, à linhagem dos egoístas, daqueles que resistem em dar-se ao leitor - e quantos, da linhagem contrária, chegam a oferecer-se impudicamente, numa prostituição deslumbrante! Realmente, prefiro que o leitor dê o primeiro passo em minha direção. Estimo que ele me reconheça antes que eu lhe estenda a mão’.

Quem escreve, para quem escreve? Essa velha questão, desde sempre, assola a mente dos que se expõem ao escrever. Escreve-se mais para si ou mais para outrem? Penso que cada momento de escrita é, ou deve ser percebido como novo, no sentido de que ora predomina a necessidade pessoal de expressar-se, ora prevalece o desejo de que a mensagem alcance ao outro. Expor-se ao risco de escrever guarda uma sombra onde nunca se está em plena consciência da motivação do momento, sem, contudo, tomar distância da experiência estética, por consequência, ética.

‘Poeta, sou um profissional. Mas, para proteger o meu ofício, finjo-me de amador. Para mim, a criação artística é um trabalho, do qual decorre um resultado. Assim, desejo que, em meu poema, um ponto-e-vírgula tenha mais importância estética de que toda a obra completa de outro passante literário’, remata Lêdo Ivo.


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